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Estresse parental e o desenvolvimento da criança autista

10 minutos

O estresse parental tem sido estudado há anos pela ciência e foi definido, em 1998, por Kirby Deater-Deckard no artigo Parenting stress and child adjustment: somes old hypotheses and new questions, como qualquer experiência de desconforto ou sofrimento que resulta das demandas características da parentalidade.

Essa experiência é presente na vida de todos os pais, independentemente das suas características pessoais, das habilidades da criança, de fatores sociais ou demográficos. É claro que esses fatores modulam a intensidade da experiência, porém independentemente deles, haverá algum nível de estresse atribuído ao papel de ser pai ou mãe.

Com pais de pessoas autistas isso não é diferente. Neste artigo falamos sobre alguns dos motivos, quais os impactos dos níveis de estresse parental no desenvolvimento de crianças autistas e algumas dicas de como lidar com isso.

Como o estresse afeta nosso dia a dia

O estresse cotidiano impacta a qualidade de vida de todos nós. Seus efeitos característicos são diversos, mas podem incluir:

  • Cansaço
  • Fadiga
  • Depressão
  • Alterações neurais e hormonais, que podem aumentar o risco de algumas patologias, como doenças cardíacas.

Existem muitas causas para o acúmulo de estresse. Dentre elas, ele pode ser o resultado de alguma situação de emergência, como um acidente traumático ou situações da vida cotidiana, como ambiente de trabalho insalubre, trânsito, responsabilidades financeiras ou familiares. 

Quando relacionamos estresse com a parentalidade, especialmente de crianças com diagnóstico de autismo, estamos nos referindo ao estresse crônico. Esse tipo de estresse é presente de maneira contínua e com magnitude média.

Estresse parental de pais de crianças com autismo

Há alguns anos a ciência tem estudado o estresse relacionado à parentalidade. Desde a década de 1990, pesquisadores têm levantado dados que apontam que o nível de estresse de pais de crianças com deficiência é mais elevado do que pais de crianças sem deficiência.

Quando falamos de pais de pessoas autistas, as pesquisas demonstram que os níveis de estresse são ainda maiores e podem impactar nos resultados da intervenção com a criança.

Um estudo realizado em 2008, intitulado Parenting Stress Reduces the Effectiveness of Early Teaching Interventions for Autistic Spectrum Disorders, indica que o estresse parental pode ser um dos fatores que  interferem na efetividade da intervenção precoce.

Como o estudo foi feito

Ao todo, o estudo contou com 65 participantes, pais de crianças autistas que tinham entre 2 e 4 anos. Todas elas estavam no processo de início das intervenções precoces para o TEA.

Para avaliar as hipóteses, os pesquisadores aplicaram escalas para qualificar:

  • O repertório comportamental das crianças
  • Os níveis de estresse dos pais

Estas escalas foram aplicadas durante dois momentos: no início e, após 10 meses, no final da pesquisa. Isso foi feito para que os pesquisadores pudessem avaliar e comparar as pontuações obtidas em cada momento e assim investigar se houve relação entre o nível de estresse dos pais e o repertório da criança.

A seguir, abordamos os principais resultados divulgados pelos pesquisadores.

Resultados

Os resultados obtidos no estudo demonstraram que as intervenções feitas com crianças filhas de pais com níveis elevados de estresse foram menos efetivas. Especialmente quando a criança foi submetida a intervenções consideradas intensivas (mais de 15h semanais).

Esses dados são compatíveis com os encontrados em outros estudos. Além disso,  outros pesquisadores descreveram resultados que relacionam a melhora de comportamentos da criança como consequência da redução dos níveis de estresse dos pais.

Tudo isso demonstra a importância do bem-estar dos cuidadores das pessoas autistas. De fato, os pesquisadores do estudo citado concluíram que é importante medir e acompanhar os níveis de estresse dos pais, como parte da intervenção com a criança.

Motivos para o estresse parental em pais de autistas

Ao longo do tempo, a ciência tem demonstrado que o estresse dos pais impacta diretamente no desenvolvimento da criança. Porém, ainda é necessário entender quais os motivos que levam pais de pessoas autistas a apresentarem níveis de estresse tão superiores quando comparados a pais de crianças com desenvolvimento típico e de crianças com outras deficiências.

Dentre os motivos que justificam esses níveis elevados estão:

  • sobrecarga de tarefas e responsabilidades. Vale lembrar que, em geral, as mães se tornam as principais cuidadoras dos filhos com autismo.
  • Cuidadores de pessoas autistas reportam passar ao menos duas horas a mais por dia em atividades de cuidado dos filhos, se comparados com cuidadores de crianças sem deficiência.
  • Cuidadores de crianças autistas têm duas vezes mais chances de relatarem cansaço e três vezes mais chances de passarem por um evento estressante.
  • Alguns estudos apontam que o estresse parental de pais de crianças autistas está relacionado com as dificuldades sociais, comportamentos repetitivos e restritivos, característicos do TEA.

Além disso, outros estudos abordam o cansaço e a sobrecarga de familiares, especialmente as mães, de crianças no TEA. Um deles foi publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders e afirma que os níveis de cansaço e exaustão de mães de crianças autistas são semelhantes aos apresentados por soldados.

Tendo isso em vista,  é preciso encontrar maneiras de ajudar esses cuidadores a lidar e diminuir o nível de estresse em suas rotinas.

Lidando e diminuindo o nível de estresse no dia a dia

Antes de mais nada, é importante lembrar que ainda que os níveis de estresse sejam mais altos em cuidadores de crianças no espectro, pais de crianças sem deficiência também apresentam níveis de estresse relacionados à parentalidade.

Além disso,  as chances de pais de crianças autistas terem experiências positivas com seus filhos é semelhante a de pais de crianças com desenvolvimento típico.

Dessa forma, vamos destacar a seguir algumas estratégias para manejo de estresse que podem ajudar na manutenção da saúde de todas as famílias:

  • Sono: manter hábitos de higiene do sono, como diminuir uso de telas próximo da hora de dormir, para garantir que o sono seja restaurador.
  • Alimentação: manter uma alimentação equilibrada, variada, pouco industrializada e sem restrição de nenhum grupo alimentar para garantir que todos nutrientes necessários estão sendo consumidos.
  • Atividade física: ainda que você não goste de academias, é importante se movimentar. Escolha uma atividade que seja prazerosa, assim há mais chances de que você consiga manter como hábito.
  • Foco na respiração: pratique a respiração diafragmática. Essa técnica pode ajudar no manejo da ansiedade de preocupação.
  • Escaneamento do corpo: use o relaxamento muscular progressivo  como forma de relaxar seus pensamentos e corpo.
  • Mindfulness: mantenha como hábito o treino da habilidade de manter-se no momento presente, para diminuir ruminação de preocupações e pensamento agitado. A prática pode ser realizada utilizando aplicativos com exercícios guiados, praticando yoga ou outras atividades que ensinem o foco intencional da atenção no momento (e não nos pensamentos/preocupações).
  • Se conecte com os outros: relações sociais próximas e íntimas são importantes para que você receba ajuda quando precisar e para descontrair, se divertir e relaxar.
  • Pratique a autocompaixão: existem dados científicos que apontam que a compaixão consigo mesmo pode ser uma habilidade importante para manutenção da qualidade de vida de pais de crianças no espectro.

Nas palavras de Stephanie Hayes e Shelley Watson: “É importante lembrar que há muito mais na história das famílias de crianças autistas do que o estresse parental e é nossa responsabilidade como pesquisadores identificar fatores que facilitam o funcionamento familiar e fomente esperança para o futuro”.

Por esses motivos, cuidar da saúde mental e qualidade de vida de todo núcleo familiar é essencial para o bem estar tanto dos pais e familiares, como para o desenvolvimento da criança no espectro.

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