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Crianças brincando no recreio escolar. A menina brinca em se penturar de ponta cabeça em brinquedo colorido.

5 Estratégias práticas para o recreio escolar de crianças com autismo

O recreio escolar é, para os alunos, um dos momentos mais aguardados do dia. É o espaço onde as amizades se formam, as crianças gastam energia e as brincadeiras ganham vida.

Mais do que uma pausa entre as aulas, a hora do recreio é repleta de oportunidades para criar um ambiente onde todas as crianças podem se conhecer melhor, interagir e aprender umas com as outras.

Pensando nas crianças autistas, esses minutos no pátio são ainda mais valiosos, uma vez que elas podem desenvolver habilidades e repertório que levarão consigo por toda a vida.

Ali, elas podem aprender na prática a:

  • socializar de diferentes formas;
  • seguir as regras de uma brincadeira;
  • lidar com a transição do tempo;
  • comunicar seus desejos e suas necessidades; e
  • reconhecer os limites do próprio corpo.

Com tantas vantagens, é fundamental que a escola esteja preparada para este momento.

Por isso, neste artigo, reunimos cinco estratégias que as escolas podem adotar para tornar o recreio escolar mais inclusivo e promover o aprendizado, a autonomia e o bem-estar de todos os estudantes. Continue a leitura!

Por que o recreio pode ser desafiador no autismo?

Cada criança no espectro autista, de acordo com suas singularidades e seu perfil sensorial, pode vivenciar o recreio escolar de maneiras diferentes.

Algumas crianças podem ter mais facilidade para interagir e se divertir. Outras podem se sentir sobrecarregadas diante da intensidade ou da quantidade de estímulos presentes no ambiente.

Dentre os fatores que tornam o recreio escolar mais desafiador para algumas crianças no espectro estão:

  • Sobrecarga sensorial: o barulho das conversas e brincadeiras de dezenas de crianças juntas, assim como as movimentações constantes do recreio escolar, podem ser estímulos que demandam mais esforço cognitivo para processar. Sem os devidos cuidados, esse excesso de estímulos pode levar a criança à desregulação emocional, resultando em comportamentos de luta, fuga ou congelamento (Meltdown ou Shutdown).
  • Falta de previsibilidade: sem uma comunicação clara do que pode acontecer, de quem vai participar e de quais são as regras do recreio escolar, o cérebro de algumas crianças autistas pode necessitar de um grande esforço para se adaptar. A ansiedade pode aumentar quando a criança não sabe o que esperar daquele ambiente.
  • Dificuldades na comunicação e interação social: algumas crianças no TEA podem precisar de suporte para compreender como uma brincadeira funciona, para ler as expressões faciais dos colegas e, assim, conseguir se conectar ou brincar com as outras crianças.

Para Chloé Hayden, pessoa autista e autora do livro Different, Not Less, por exemplo, o recreio escolar era o momento mais angustiante do dia.

Você consegue imaginar o quão exaustivo deve ser um ambiente para uma criança preferir passar seu tempo livre escondida na cabine de um banheiro? Chloé relata que essa era sua realidade.

Isso porque, diferente da sala de aula, o recreio escolar é um momento dinâmico, repleto de imprevisibilidades, distrações, correria e, como a própria Chloé pontuou, cheio de “regras sociais complexas e não ditas”, que ela não conseguia decifrar.

Compreender essas barreiras é o primeiro passo para transformar o recreio tradicional em um recreio inclusivo, no qual todas as crianças tenham suas necessidades respeitadas e encontrem possibilidades de participar.

Recreio tradicional vs. recreio inclusivo: o que muda?

Infográfico mostrando as diferenças entre recreio escolar tradicional e de criança autista

No modelo de recreio escolar tradicional, é comum as crianças brincarem livremente, com a supervisão dos adultos focada somente na segurança e em evitar acidentes. O recreio escolar inclusivo, por outro lado, adota uma postura proativa, estruturada e intencional.

A ciência demonstra que a inclusão no pátio exige mais do que a convivência física no mesmo espaço. A principal diferença está na mediação ativa dos adultos e no uso de estratégias como suportes visuais e a estruturação prévia de brincadeiras.

Dentro desse cenário estruturado, uma das possibilidades que a escola pode aplicar é a Intervenção Mediada por Pares (IMP). Estudos evidenciam que a IMP melhora não só a quantidade, mas a qualidade das interações, aumentando:

  • o tempo de engajamento social;
  • a motivação; e
  • as iniciações de conversas por parte das crianças autistas em ambientes não estruturados.

Isso acontece porque esta prática baseada em evidências foca em ensinar aos colegas de desenvolvimento típico táticas práticas e acionáveis de interação. Eles aprendem, por exemplo:

  • como convidar o colega autista para um jogo;
  • como alternar turnos;
  • como dar dicas visuais; e
  • como fornecer elogios e reforços positivos.

É importante ressaltar que, na IMP, essas crianças não se tornam terapeutas ou responsáveis pelo colega no TEA. O objetivo é a inclusão pelo brincar e interagir.

Pesquisas também comprovam que, quando a própria equipe escolar, como monitores do pátio, inspetores e professores, é treinada para facilitar as abordagens, as interações entre as crianças aumentam e se mantêm ao longo do tempo.

Os profissionais atuam inicialmente modelando as brincadeiras e, gradualmente, retiram seu apoio para a socialização fluir com autonomia.

Quando os pares deixam de ser apenas observadores e recebem ferramentas concretas para interagir, a diversidade passa a ser a regra e não a exceção.

A escola se transforma em uma comunidade ativa de apoio mútuo, onde a interação natural é que assume o protagonismo.

5 estratégias práticas para aplicar na hora do recreio

Tornar o recreio escolar um espaço inclusivo e atrativo não exige grandes reformas estruturais, mas sim intencionalidade.

A seguir, você entenderá estas cinco estratégias práticas e aplicáveis para tornar o momento acolhedor e divertido:

  1. criar zonas de baixo estímulo;
  2. garantir previsibilidade;
  3. estruturar as brincadeiras;
  4. definir um parceiro de brincadeira;
  5. monitorar os sinais de sobrecarga.

Vamos lá!

1. Crie zonas de baixo estímulo

A regulação emocional diz respeito a como nosso organismo recebe os estímulos do mundo, os processa e responde a eles para manter o corpo em equilíbrio (homeostase).

Em um ambiente sem regras claras e com diferentes estímulos, como o pátio do colégio, uma boa prática é estruturar locais de descompressão.

Ainda sobre o livro Different, Not Less, Chloé usa sua experiência pessoal para levantar essa questão tão importante: a necessidade de as escolas oferecerem espaços seguros ou salas silenciosas.

Ela argumenta que nenhuma criança deveria ter que almoçar escondida dentro de uma cabine de banheiro simplesmente porque o ambiente escolar é hostil ao seu cérebro e não oferece um local calmo para ela se regular.

Nem toda criança autista precisará usar este espaço diariamente, mas ter um “cantinho do respiro” oferece uma rota de fuga para quando os sinais de sobrecarga aparecerem.

Neste espaço, a escola pode incluir, por exemplo:

  • pufes;
  • livros diversos;
  • materiais de desenho; e
  • objetos reguladores.

Saber que existe um refúgio caso os estímulos do ambiente se tornem incômodos, por si só, já pode reduzir a ansiedade da criança no espectro, assim como a carga cognitiva durante o recreio escolar.

2. Garanta previsibilidade

O sistema nervoso de qualquer pessoa sempre busca a previsibilidade para se sentir em segurança. Com as crianças autistas, isso não é diferente.

No entanto, para algumas delas, a quebra de expectativa sem aviso prévio pode ser um gatilho para a desorganização, pois essa necessidade de antecipar situações pode ser ainda mais intensa.

A escola e a família, portanto, devem preparar a criança para o que pode acontecer durante o recreio escolar. Algumas boas práticas para essa preparação incluem:

  • Horários visuais e temporizadores: dar previsibilidade sobre o horário de início e de término do recreio escolar. O uso de um temporizador visual ajuda a criança a compreender quanto tempo falta para a brincadeira começar, acabar e para regressar à sala de aula, facilitando esta transição.
  • O que pode e o que não pode fazer: procure fugir das regras abstratas. Use suportes visuais e histórias narrativas para mostrar ações concretas e objetivas do que é permitido, como emprestar o brinquedo ou pedir a vez de jogar, e do que não é permitido, como bater ou empurrar os colegas.
  • O plano B: também é possível usar o recurso de histórias narrativas para contar às crianças o que foi planejado para o recreio escolar e mostrar o plano B para o caso de algo sair do planejado, como uma chuva que impeça de ir para o pátio.

A previsibilidade é um dos pilares essenciais para manter o corpo da criança autista regulado e disponível para interações e aprendizagem.

3. Estruture as brincadeiras

A rigidez comportamental no autismo muitas vezes reflete a falta de um repertório conhecido, como a dificuldade de recalcular rotas diante de uma mudança. Se a criança não sabe como entrar na brincadeira, por exemplo, ela pode acabar se isolando dos colegas.

Uma excelente estratégia para o recreio escolar é criar clubes de interesse, como um clube do desenho ou um clube dos blocos de montar. Agrupar crianças em torno de seus interesses em comum facilita o contato inicial e as interações sociais.

Além disso, procure ensinar o passo a passo das brincadeiras, usando sequências de imagens lúdicas e/ou videomodelação para dar previsibilidade sobre as regras da interação.

Por exemplo, se o objetivo é brincar de pega-pega, crie um cartão visual que mostre a sequência exata das ações pela visão do aluno:

  1. Quando eu sou o pegador, eu escolho uma pessoa;
  2. Eu corro atrás dela;
  3. Eu encosto nela;
  4. Agora, ela é a pegadora;
  5. Eu corro para fugir;
  6. Ela corre atrás de mim.

Quando a criança compreende as regras e o funcionamento do jogo por meio de suportes visuais que não dão margem para ambiguidade, ela se sentirá mais confiante para participar.

4. Defina um parceiro de brincadeira

Como mencionamos na Intervenção Mediada por Pares, os adultos podem criar oportunidades para favorecer as interações entre as crianças durante o recreio escolar, sempre respeitando seus interesses, limites e formas de participação.

O professor ou mediador pode orientar a turma de maneira lúdica e respeitosa, como o amigo autista se comunica e interage, mostrando que pessoas diferentes brincam e interagem de formas diferentes.

Assim, a responsabilidade pela inclusão permanece com os adultos, enquanto as crianças têm a oportunidade de aprender, na convivência, a reconhecer e respeitar diferentes formas de ser, comunicar-se e participar.

5. Monitore os sinais de sobrecarga

Mesmo com todas as adaptações, a imprevisibilidade inerente ao recreio escolar ainda pode levar algumas crianças autistas a se desorganizarem.

Por isso, a equipe escolar precisa estar atenta aos sinais de que a criança está começando a sair do seu estado de equilíbrio e ficando sobrecarregada.

Antecipar a desregulação emocional é fundamental para mitigar possíveis traumas e tornar a experiência da criança na escola o mais agradável possível.

E o que fazer se a criança começar a se desorganizar?

  • Identificação precoce: observe sinais como agitação, tapar os ouvidos ou isolamento abrupto.
  • Manter a calma e corregular: neste momento, o adulto da escola deve atuar como âncora regulatória, emprestando sua calma até a criança no espectro se autorregular. Nada de sermões ou cobranças. Se precisar falar, prefira fazer perguntas nas quais as respostas sejam diretas, como “sim” ou “não”, para evitar ainda mais esforço cognitivo da criança.
  • Uso de estratégias de regulação: direcione a criança para o local de descompressão, ofereça recursos regulatórios já mapeados, como objetos de apertar ou abafadores de ruído, e reduza a demanda social e verbal. Deixe suportes visuais de comunicação próximos para o caso de a criança perder a habilidade de falar momentaneamente.

Ao compreender e assimilar estratégias como essas, o ambiente escolar pode proporcionar impactos positivos na saúde mental e no desenvolvimento das crianças no TEA.

Temos um artigo completo que aborda a desregulação emocional, mostrando estratégias para usar antes ou durante esses episódios: Crises no autismo: o que são, gatilhos e como agir.

O papel do mediador escolar no intervalo

A presença de um mediador, como um acompanhante terapêutico ou profissional de apoio, é um direito da pessoa autista garantido por lei, mas seu papel no recreio escolar deve ser muito bem compreendido.

O objetivo da intervenção escolar não é que a criança brinque somente com o mediador. O adulto deve ser uma ponte, um facilitador de interações.

Inicialmente, o mediador pode auxiliar a criança a se aproximar do grupo, a modelar a comunicação e a garantir um ambiente estruturado para a interação social.

No entanto, à medida que a criança ganha confiança e os pares aprendem a interagir, o mediador deve recuar gradualmente, adotando uma postura de supervisão, de forma a garantir a autonomia e o protagonismo do aluno no espectro.

É importante destacar que o mediador não substitui as responsabilidades da escola. O Plano Educacional Individualizado (PEI) e as estratégias de inclusão são deveres das escolas, e o recreio escolar deve constar no planejamento pedagógico como um espaço de aprendizagem social tão importante quanto a sala de aula.

Conclusão

O recreio escolar deve ser um momento de diversão e pertencimento para todos os alunos. Como vimos, tornar o pátio inclusivo não exige reformas complexas, mas sim intencionalidade e preparo de toda a equipe.

Ao unir a Intervenção Mediada por Pares, o uso de suportes visuais, a previsibilidade das brincadeiras e o respeito às singularidades de cada aluno, a comunidade escolar transforma barreiras em pontes para a socialização.

A inclusão só acontece de verdade quando o ambiente se adapta para que todos possam pertencer, garantindo que toda criança tenha o direito de brincar, interagir e ser quem é com autonomia e confiança.

Se você deseja se aprofundar em práticas baseadas em evidências e entender como apoiar o desenvolvimento de crianças no espectro autista, navegue pela nossa seção de conteúdos dedicados às nossas intervenções:

Metodologia Genial Care

Perguntas Frequentes (FAQ)

A criança autista é obrigada a ir para o pátio no recreio?

Não, mas o recreio escolar é um momento repleto de oportunidades para a interação social e o desenvolvimento de habilidades e repertório. Cada criança no espectro autista, de acordo com suas singularidades e seu perfil sensorial, pode reagir a esta pausa de maneiras diferentes. Forçar a ida para um ambiente com excesso de estímulos pode gerar desorganização. A solução ideal é criar zonas de baixo estímulo na escola. Nem toda criança autista precisará usar este espaço diariamente, mas ter um “cantinho do respiro” oferece uma rota de fuga para quando os sinais de sobrecarga aparecerem.

Como lidar com o barulho do sinal da escola?

O toque do sinal pode envolver dois grandes desafios principais para as crianças autistas: a sobrecarga sensorial pelo barulho e a falta de previsibilidade do que acontecerá no recreio escolar. Para minimizar os impactos do sinal, a equipe escolar pode aplicar duas estratégias:

  1. Antecipação: usar horários visuais e temporizadores, ajudando a criança a compreender quanto tempo falta para a brincadeira iniciar e acabar, e para que o sinal não seja um susto.
  2. Uso de estratégias de regulação: oferecer preventivamente recursos regulatórios já mapeados, como objetos de apertar ou abafadores de ruído minutos antes de o sinal tocar.

Como lidar com a dificuldade de comer o lanche durante o recreio?

Muitas vezes, a recusa alimentar no recreio escolar ocorre porque o ambiente é repleto de estímulos. A melhor saída é permitir que o lanche seja feito com calma no cantinho do respiro ou em outra área silenciosa, reduzindo a demanda social para que a criança consiga focar na alimentação.

Fontes/Referências

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