Pesquisar
Mãe praticando regulação emocional com filho autista que está triste devido a ter pedido na brincadeira.

Regulação emocional no autismo: como lidar com as mudanças de rotina

Regulação emocional é um processo biológico e psicológico que diz respeito a como nosso organismo recebe os estímulos do mundo, processa essas informações e responde a elas para manter o corpo em equilíbrio.

Quando pensamos em crianças autistas, falar sobre esse equilíbrio ganha contornos ainda mais profundos, especialmente em momentos de transição e quebra de rotina.

Períodos como o início das férias escolares ou o posterior retorno às aulas quebram a previsibilidade do dia a dia, exigindo um grande esforço adaptativo dessa criança.

Nesse cenário, as famílias exercem um papel fundamental. O adulto funciona como uma âncora regulatória, um suporte para a criança encontrar segurança em meio à imprevisibilidade do novo.

Neste artigo, você entenderá o que é regulação emocional, como funciona no autismo e quais estratégias práticas as famílias podem adotar para construir um ambiente seguro em momentos de mudança.

O que é regulação emocional?

regulação emocional: menino de olhos fechados na frente de uma janela

Regulação emocional é a capacidade do ser humano de identificar previamente os avisos de sobrecarga corporal, como o aumento da frequência cardíaca, e oferecer ao organismo os recursos de que ele precisa para retornar ao seu estado de equilíbrio, chamado de homeostase.

Regular emoções começa no próprio corpo. Nosso estado fisiológico influencia diretamente como percebemos o mundo, pensamos e respondemos aos desafios do dia a dia.

Isso significa que tanto a regulação, quanto a desregulação e a sobrecarga emocional fazem parte da experiência humana e acontecem com todas as pessoas em diferentes momentos.

O objetivo da regulação emocional, portanto, não é eliminar as emoções difíceis porque isso seria impossível. O verdadeiro propósito é promover o autoconhecimento para que seja possível reconhecer os primeiros sinais de que algo no corpo não está em seu pleno funcionamento.

Como funciona a regulação emocional no autismo?

A regulação emocional no autismo funciona de maneira singular porque depende da forma como o sistema nervoso da pessoa processa os estímulos do ambiente e os sinais do próprio corpo.

Pessoas TEA frequentemente vivenciam reações sensoriais e emocionais muito mais intensas, confusas ou alteradas do que pessoas neurotípicas. Quando o organismo não consegue identificar ou processar essa sobrecarga a tempo, ele aciona respostas que se manifestam por meio de comportamentos de luta, fuga ou congelamento.

No caso das crianças autistas, isso pode ser ainda mais desafiador, uma vez que lhes falta repertório para lidar com o excesso de estímulos do ambiente e conseguir se autorregular.

A relação entre interocepção e autorregulação no autismo

Para compreender essa dinâmica, precisamos falar sobre a interocepção, nossa capacidade de ler e interpretar os sinais internos do organismo, por exemplo:

  • os batimentos cardíacos acelerando;
  • a respiração encurtando;
  • os músculos ficando tensos;
  • ou a sensação de fome e sono.

Conforme explica Kelly Mahler, terapeuta ocupacional norte-americana e uma das maiores referências mundiais no estudo da interocepção, a consciência interoceptiva funciona como a ponte essencial que avisa a mente: “algo mudou no meu corpo, preciso de apoio agora”.

Logo, se a criança não consegue perceber fisicamente que está entrando em sobrecarga sensorial, ela simplesmente não poderá acionar qualquer estratégia de enfrentamento e autorregulação para restabelecer seu bem-estar.

Qual a importância da regulação emocional da família da criança TEA?

Existe uma premissa na prática clínica da Genial Care que explica a importância da regulação emocional da família de crianças TEA: um corpo regulado corregula outro corpo.

Na infância, o sistema nervoso está em pleno desenvolvimento e ainda não possui maturidade biológica para retornar à homeostase sozinho.

Por isso, a criança depende do adulto para captar seus sinais, ler suas necessidades e restabelecer a segurança em um processo que chamamos de corregulação.

Alice Tufolo, psicóloga e conselheira clínica na Genial Care, exemplificou a corregulação com um cenário bastante comum:

Eu gosto muito daquele exemplo que todo mundo já viveu se convive com uma criança: ela corre, cai, rala o joelho, levanta e está tudo certo. Mas se ela está sangrando e a mãe fala: ‘ai, meu Deus, meu filho’, ele olha e começa a chorar e a se debater. Por quê? Esse adulto diz para a criança se está tudo bem ou não, [ele diz] o que está acontecendo com ela.

Em resumo, a regulação emocional dos cuidadores é a base para guiar o sistema nervoso da criança de volta ao equilíbrio.

Mudanças de rotina no autismo: 6 estratégias para corregular a criança

emoções no autismo: mulher adulta segura em uma das mãos imagem de carinha feliz e na outra imagem de carinha triste. Criança aponta para rosto feliz

Muitas crianças autistas enfrentam desafios relacionados ao planejamento e à execução de novas ações. Então imagine que sempre que uma mudança de rotina é necessária, a criança precisa “recalcular a rota” mentalmente, e esse esforço pode sobrecarregar seu corpo e fazer o copo da regulação emocional transbordar.

Neste momento, é fundamental que a família tenha estratégias para corregular a criança e, principalmente, para garantir que ela ganhe repertório e autonomia para lidar futuramente com desafios parecidos.

As estratégias que você verá a seguir servem como um ponto de partida para auxiliar a criança a lidar com mudanças e evitar que ela chegue à desorganização, sempre partindo do princípio que cada criança possui suas singularidades e podem responder de maneiras diferentes às intervenções. São elas:

  1. Autorregulação da família;
  2. Previsibilidade;
  3. Postura de detetive;
  4. A “caixa de ferramentas” da comunicação;
  5. Leitura corporal e corregulação ativa;
  6. Enriquecendo o novo ambiente ou a nova rotina.

A grande virada de chave aqui é pensar, planejar e iniciar tais estratégias antes mesmo de a mudança de rotina acontecer.

Entenda cada uma delas nos próximos tópicos.

1. Autorregulação da família

O cuidado começa com quem cuida. Mapear os próprios gatilhos de estresse e reconhecer o que acontece com seu corpo nesses momentos são os primeiros passos para não reagir no modo automático.

Antes de intervir na desregulação emocional da criança, faça uma pausa consciente. Use recursos reguladores, como fazer uma expiração mais longa do que a inspiração, tomar um copo de água ou respirar fundo por alguns instantes, para garantir que seu tom de voz e sua postura transmitam segurança.

Para entender mais sobre o papel da autorregulação da família, leia também: Estresse parental e o desenvolvimento da criança autista.

2. Previsibilidade

Uma das principais estratégias que defendemos na Genial Care e usamos em nossas intervenções é fornecer o máximo de previsibilidade possível à criança antes de uma mudança acontecer.

Se você já sabe que na próxima semana começarão as férias escolares, comunique para a criança como será a nova rotina nesse período. Caso a mudança seja o início de uma nova atividade, conte os detalhes do que está por vir.

A psicóloga Alice Tufolo traz uma dica essencial que as famílias podem usar em momentos de mudança:

Eu amo o recurso das histórias narrativas, com visuais descrevendo para a criança o que vai acontecer naquele ambiente, quais são as dificuldades que podem aparecer e o que ela pode fazer se aparecer aquela dificuldade. É muito mais tranquilo pensar que ‘se tudo der errado eu consigo ir por esse caminho’”.

3. Postura de detetive

Assuma o posto de “investigador do comportamento”. Em vez de olhar apenas para a quebra da rotina em si, investigue como essa mudança está impactando o corpo da criança.

A falta de previsibilidade pode disparar diferentes formas de desconforto. Seu papel como detetive é entender os pormenores:

  • Essa agitação é fruto de ansiedade?
  • A criança está entediada nesse novo cenário?
  • Existe um cansaço físico acumulado pela mudança de horários?
  • Há uma sobrecarga sensorial trazida pelo novo ambiente, como um cheiro ou uma luz que gera incômodo?

Investigar o que a criança está sentindo naquele momento muda o foco de “ela não gosta de mudanças” para “quais necessidades dela precisam ser atendidas a partir dessa mudança”.


Terapeuta em clínica de autismo. Ela está com menina autista.

4. A “caixa de ferramentas” de comunicação

Para a criança ser compreendida, ela deve ter em seu repertório ferramentas funcionais para sinalizar o desconforto antes de entrar em crise.

Oferecer suporte à comunicação dessa criança é um direito fundamental, seja validando gestos, expressões vocais, o ato de apontar ou implementando sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).

Segundo Giovanna Casarotto, fonoaudióloga na Genial Care:

Não existe uma única forma exclusiva, específica e correta de uma criança se comunicar. É importante ensinar, além de gestos, Comunicação Aumentativa e Alternativa, apoiando a comunicação da criança, oferecendo acessibilidade a essa comunicação e incentivando a fala. Quando ela estiver em uma situação em que não dá conta, ela faz um sinal de que ‘não está funcionando para mim’. Isso já é o suficiente para o outro entender: ‘olha, ela está em alerta; vamos sair daqui’.

5. Leitura corporal e corregulação ativa

A família também precisa estar sempre atenta aos pequenos sinais físicos que precedem uma crise derivada da quebra da rotina, como a mudança na respiração ou o enrijecimento das mãos, por exemplo.

Em vez de forçar a atividade, valide a experiência da criança nomeando o que ela está vivenciando: “Estou percebendo que suas mãos estão apertadas e seu corpo está agitado. Parece que essa mudança te chateou”.

Essa validação e nomeação dos sentimentos ajuda a construir, gradualmente, a consciência interoceptiva de que falamos antes.

6. Enriquecendo o novo ambiente ou a nova rotina

A adaptação a uma nova rotina não precisa ser baseada apenas em regras e restrições. O foco deve ser como tornar esse novo cenário adequado, interessante e motivador para a criança TEA.

Se um novo espaço passou a fazer parte do dia a dia ou ela deixará de fazer algo que fazia regularmente, inclua elementos de forte interesse dela, como brinquedos favoritos, temas que ela gosta ou atividades que gerem bem-estar, integrados a essa transição.

Mudar a rotina fica muito mais leve quando o cérebro da criança percebe que o novo ambiente também guarda fontes genuínas de entretenimento e segurança.

Conclusão

Navegar pelas mudanças de rotina exige compreender que a regulação emocional é um processo vivo que começa no corpo. Quando acolhemos a singularidade de cada criança autista, deixamos de focar apenas no comportamento para investigar as reais necessidades sensoriais, físicas e interoceptivas que o ambiente está demandando dela.

Nessa jornada, a corregulação se torna a ferramenta mais potente de cuidado. Ao garantir que a criança entenda seus sinais de desorganização e tenha suas necessidades atendidas em momentos de mudança, famílias e cuidadores a ajudam a construir repertório e autonomia para toda a vida.

Na Genial Care, acreditamos que a regulação emocional de todo o ecossistema familiar e terapêutico das crianças autistas é o caminho mais seguro para transformar a imprevisibilidade do dia a dia em um espaço de acolhimento, evolução e bem-estar compartilhado. Quer entender como funciona nosso modelo clínico? Navegue pela área dedicada aos conteúdos sobre nossas intervenções:

Direitos dos autistas

Terapias para a sua criança autista pelo plano de saúde

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Terapias pelo seu plano com início imediato
Garanta o início das terapias da sua criança nas unidades de Santana/Limão e Pinheiros, em São Paulo.
Conheça todas as nossas unidades na Grande São Paulo.

Conheça a Genial Care

Se você reside na cidade de São Paulo ou na região metropolitana, clique no botão abaixo e preencha o formulário:
13/10: dia do terapeuta ocupacional Omint: novo plano de saúde parceiro da Genial Care Prepare-se pra começar as terapias da sua criança com Autismo Novo símbolo de Acessibilidade: um passo para a inclusão! 6 personagens autistas em animações infantis