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Pelo TEA ser um espectro com 3 níveis de necessidade e suporte, que representam diferentes repertórios de uma pessoa, o diagnóstico apresenta alguns desafios específicos para os profissionais da saúde.
Isso acontece, pois não existe um exame clínico específico e fechado para o diagnóstico de autismo, mas sim uma série de avaliações de aspectos comportamentais de uma pessoa, feitas por uma equipe de profissionais de várias áreas, sendo o diagnóstico final sempre fornecido por um médico.
Por isso, médicos usam os critérios estabelecidos pelo DSM-5 — Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — para conseguir fechar o laudo e entender se um indivíduo apresenta sinais característicos do TEA.
Mas quais são esses critérios usados pelo DSM-5 para autismo? É isso que você entenderá neste texto. Acompanhe a leitura!
O que é DSM-5?
O DSM — Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — é um documento criado pela Associação Americana de Psiquiatria ou APA (American Psychiatric Association), principal organização de estudantes e profissionais de Psiquiatria dos Estados Unidos.
Chamamos de DSM-5 pois ele está em sua 5ª edição, lançada em 2013. A cada nova versão, são adicionados critérios para definir como é feito o diagnóstico de transtornos mentais.
Importante saber que, até o DSM-4, o diagnóstico de autismo poderia receber um destes nomes:
- Transtorno Autista;
- Síndrome de Asperger;
- Transtorno Desintegrativo Infantil;
- Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Já a partir do DSM-5, o autismo passa a ser chamado de Transtorno do Espectro do Autismo, classificado como um dos transtornos do Neurodesenvolvimento, caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e interação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Essas novas classificações do DSM-5 trouxeram mudanças significativas em todos os critérios usados para realização do diagnóstico de autismo, ampliando a identificação dos sintomas e focando em observações do desenvolvimento da interação social e comunicação das crianças.
Com essa nova descrição, profissionais e familiares têm mais facilidade de compreensão dos sinais do TEA, ajudando na realização de diagnósticos e intervenções precoces.
Critérios diagnósticos do DSM-5 para autismo
Nesse manual diagnóstico, o TEA fica classificado como:
299.00 (F84.0) Transtorno do Espectro Autista (50)
- Especificar 5: Associado a alguma condição médica ou genética conhecida, ou a fator ambiental; Associado a outro transtorno do neurodesenvolvimento, mental ou comportamental;
- Especificar o nível de suporte necessário (Critérios A e B): Nível 1 (exigindo apoio), Nível 2 (exigindo apoio substancial) ou Nível 3 (exigindo apoio muito substancial).
- Especificar 5: Com ou sem comprometimento intelectual concomitante, com ou sem comprometimento da linguagem;
Os critérios são divididos em A, B, C, D e E com alguns pontos específicos dentro deles. Veremos cada um deles separadamente.
Critério A
Déficits persistentes na comunicação e interação social em vários contextos, como:
- Limitação na reciprocidade emocional e social, com dificuldade para compartilhar interesses e estabelecer uma conversa;
- Limitação nos comportamentos de comunicação não verbal usados para interação social, variando entre comunicação verbal e não verbal pouco integrada e com dificuldade no uso de gestos e expressões faciais;
- Limitações em iniciar, manter e entender relacionamentos, com variações na dificuldade de adaptação do comportamento para se ajustar nas situações sociais, compartilhar brincadeiras imaginárias e ausência de interesse por pares.
Critério B
Padrões repetitivos e restritos de comportamento, atividades ou interesses, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes itens, ou por histórico prévio:
- Movimentos motores, uso de objetos ou fala repetitiva e estereotipada (estereotipias, alinhar brinquedos, girar objetos, ecolalias);
- Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a padrões e rotinas ritualizadas de comportamentos verbais ou não verbais (sofrimento extremo a pequenas mudanças, dificuldade com transições, necessidade de fazer as mesmas coisas diariamente);
- Interesses altamente restritos ou fixos em intensidade, ou foco muito maiores do que os esperados (forte apego ou preocupação a objetos, interesse preservativo ou excessivo em assuntos específicos);
- Hiper ou Hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesses incomuns por aspectos sensoriais do ambiente (indiferença aparente a dor/temperaturas, reação contrária a texturas e sons específicos, fascinação visual por movimentos ou luzes).
Critério C
Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento, porém eles podem não estar totalmente aparentes até que exista uma demanda social para que essas habilidades sejam exercidas, ou podem ficar mascarados por possíveis estratégias de aprendizado ao longo da vida.
Critério D
Esses sintomas causam prejuízos clínicos significativos no funcionamento social, profissional e pessoal ou em outras áreas importantes da pessoa.
Critério E
Esses distúrbios não são bem explicados por deficiência cognitiva e intelectual ou pelo atraso global do desenvolvimento.
Como é feito o processo de avaliação para o diagnóstico?
Embora o DSM-5 descreva os critérios diagnósticos do TEA, ele não funciona como um “teste” que é simplesmente aplicado e gera um resultado automático.
O diagnóstico de autismo é clínico, ou seja, é realizado por profissionais qualificados a partir da análise cuidadosa do desenvolvimento, do comportamento e do histórico da pessoa.
Esse processo costuma envolver:
Entrevista com os responsáveis ou com a própria pessoa
O profissional investiga o histórico do desenvolvimento, incluindo marcos motores, de linguagem e de interação social, além de compreender como a pessoa se comunica e se comporta em diferentes contextos.
Observação direta
A observação clínica é fundamental para avaliar aspectos da comunicação, interação social, padrões de comportamento e possíveis sensibilidades sensoriais.
Instrumentos padronizados
Em muitos casos, podem ser utilizados instrumentos baseados em evidências científicas, que auxiliam na organização das informações, como:
- ADOS-2 (Protocolo de Observação para Diagnóstico de Autismo)
- ADI-R (Entrevista Diagnóstica para Autismo – Revisada)
- CARS (Escala de Avaliação de Autismo na Infância)
Esses instrumentos não substituem a avaliação clínica, mas ajudam a tornar o processo mais estruturado e confiável.
Avaliação multiprofissional
Sempre que possível, o diagnóstico pode contar com uma equipe multiprofissional, envolvendo médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros especialistas, garantindo uma compreensão ampla das necessidades da pessoa.
É importante destacar que não existe exame de sangue, teste genético ou exame de imagem capaz de confirmar o diagnóstico de TEA. A avaliação considera o conjunto das características apresentadas e o impacto delas na vida da pessoa.
O objetivo do diagnóstico não é rotular, mas compreender o perfil de funcionamento e identificar quais apoios podem favorecer o desenvolvimento e a qualidade de vida.
Existem níveis de suporte para o TEA?
Ainda nos critérios diagnósticos do DSM-5 para autismo, estão presentes os níveis de gravidade ou necessidade de suporte para as atividades da vida diária. A partir da 5ª edição, o TEA passa a ser dividido em 3 níveis diferentes: (nível 1)”leve”, (nível 2) “moderado” e (nível 3)”severo”.
Já temos um texto aqui no blog detalhando melhor cada um dos níveis de suporte. Você pode acessar e ler esse conteúdo clicando aqui.
Qual a diferença do DSM e da CID?
Além do DSM-5, existe outro manual usado para a realização do diagnóstico de autismo. A CID (Classificação Internacional de Doenças) é o documento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para oferecer uma linguagem comum para que os profissionais de várias especialidades possam se comunicar da mesma forma.
A CID-11 (última versão deste manual) segue o que foi proposto pela quinta edição do DSM-5. Dessa forma, o TEA também engloba o que antes era considerado Transtorno Global do Desenvolvimento na CID10.
Assim, na versão 11 do manual, existe uma unificação de todos os quadros característicos do autismo, e os diagnósticos de autismo passam a fazer parte dos Transtornos do Espectro do Autismo, que, com as novas diretrizes, ganha um novo código — 6A02 — e novas subdivisões:

1) 6A02.0 – TEA sem TDI e com leve ou nenhum comprometimento da linguagem funcional
Inclui pessoas que:
- Atendem aos critérios diagnósticos para TEA.
- Não apresenta TDI.
- Possuem leve ou nenhum comprometimento no uso funcional da linguagem/comunicação, seja pela fala ou por outros recursos, como imagens, textos, sinais, gestos ou expressões.
2) 6A02.1 – TEA com TDI e com leve ou nenhum comprometimento da linguagem funcional
Inclui pessoas que:
- Atendem aos critérios diagnósticos para TEA.
- Apresentam TDI.
- Tem leve ou nenhum comprometimento na comunicação funcional, seja pela fala ou por outros recursos.
3) 6A02.2 – TEA sem TDI e com linguagem funcional prejudicada
Inclui pessoas que:
- Atendem aos critérios diagnósticos para TEA.
- Não apresenta TDI.
- Demonstram prejuízos acentuados na comunicação funcional para a idade, utilizando apenas palavras isoladas, frases simples ou outros recursos comunicativos (como imagens, texto, sinais, gestos ou expressões).
4) 6A02.3 – TEA com TDI e linguagem funcional prejudicada
Inclui pessoas que:
- Atendem aos critérios diagnósticos para TEA.
- Apresentam TDI.
- Tem comunicação funcional gravemente prejudicada, limitando-se a palavras isoladas, frases simples ou outros recursos comunicativos.
5) 6A02.5 – TEA com TDI e ausência de linguagem funcional
Inclui pessoa que:
- Atendem aos critérios diagnósticos para TEA.
- Apresentam TDI.
- Não têm repertório ou uso de linguagem/comunicação funcional, seja pela fala ou por outros recursos comunicativos.
Importante destacar que: o código “6A02.4 – Transtorno do Espectro do Autismo sem deficiência intelectual (DI) e com ausência de linguagem funcional” foi excluído da versão final da CID-11.
Além disso, ainda existem mais 2 subtipos de TEA na CID-11:
- 6A02.Y – Outro TEA especificado.
- 6A02.Z – TEA não especificado.
O DSM e a CID se diferenciam por serem feitos por órgãos diferentes e também em suas finalidades.
O primeiro é feito pela
APA e foca em descrever e classificar os transtornos mentais. Já o segundo, feito pela OMS e foca em descrever e classificar doenças, lesões e causas de mortalidade.
Apesar dessas diferenças, ambos são ferramentas essenciais para comunicação entre diferentes áreas da saúde, com vocabulários distintos.
Além disso, os dois auxiliam no processo de diagnóstico de condições de saúde, possibilitando o acesso a tratamentos de qualidade.
Conclusão
Compreender o diagnóstico de autismo pode ajudar a família e a própria pessoa no espectro a reconhecer suas características, necessidades e potencialidades, favorecendo o acesso a apoios adequados.
Por isso, diagnósticos e laudos não devem ser usados para reduzir as pessoas a uma caixinha ou até mesmo generalizar as experiências. Cada pessoa é única e merece ser compreendida em toda sua singularidade.
Ter o apoio de uma equipe multidisciplinar preparada e pronta para tirar suas dúvidas é fundamental nesse processo. Se você quer saber mais sobre os serviços da Genial e como realizamos nossas intervenções, acesse:






14 respostas para “DSM-5: quais são os critérios do diagnóstico para o autismo?”
No texto, diz que o laudo só pode ser emitido por médicos, porém, psicólogos também podem fechar diagnósticos e emitir laudos de qualquer transtorno mental ou do neurodesenvolvimento, legalmente, de acordo com o CRP. Não sendo permitido negar laudo psicológico em escolas, empresas, instituições e também para requerer BPC.
Correto?
Grata!
Renata Gomes
Olá, Renata. Como vai? Esperamos que muito bem.
Renata, nosso conteúdo informa que médicos usam os critérios do DSM-5 para fechar laudos.
Conforme as normativas do Conselho Federal de Psicologia (CFP), psicólogos são sim legalmente habilitados a realizar avaliações psicológicas, fechar diagnósticos e emitir laudos psicológicos relativos a transtornos mentais e do neurodesenvolvimento.
Nesse caso, vamos adicionar essa informação para trazer maior clareza na informação.
Agradecemos pelo apontamento.
Boa noite! O material é ótimo. Parabéns!
Olá, Angela. Como vai? Esperamos que muito bem.
Muito obrigado(a). Ficamos muito felizes em saber que nosso conteúdo chegou até você e que agradou/ajudou a compreender um mais sobre o autismo.
Abraço.
NA QUESTÃO 03, FIQUEI CONFUSA, MESMO DEPOIS DE FAZER RELETIURA DOS CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS.
Olá, Geovana. Como vai? Esperamos que muito bem.
Geovana, não consigamos entender o que você quis dizer com questão 03. Gostaríamos de ajudá-la, por isso, se possível, responda esse comentário nos explicando melhor.
Abraço.
Oi! Não entendi, os critérios do nível 2 e 3 são idênticos? Com ou sem DI e sem fala funcional? Então o que diferencia os níveis 2 e 3?
Obrigada
Oi, Jessica, tudo bem com você? Primeiro gostaríamos de agradecer pelo seu comentário. Realmente os critérios para Níveis severos e moderados podem ser iguais no laudo diagnóstico, mas cada pessoa diagnosticada com TEA precisa atendê-los de acordo com seu repertório e dificuldades associadas para determinado nível de necessidade e suporte. Exatamente por isso dizemos que o autismo é um espectro, já que cada pessoa é única e terá características diferentes, fazendo com que tenha maior ou menor dificuldade e/ou facilidade em determinados aspectos.
Reformulamos esse trecho do texto, atualizando-o e deixando mais claro os 4 subtipos de critérios diagnósticos da CID-11. Se ainda tiver qualquer dúvida, fique à vontade para entrar em contato novamente.
Tenho 57 sou psicóloga e hoje mais do que nunca acredito ser portadora do espectro, consigo entender várias dificuldades que tive e tenho ao longo da vida, qual profissional devo procurar para corroborar com minhas suspeitas?
Olá, Silvana. Como vai? Esperamos que muito bem!
Silvana, o diagnóstico tardio (na fase adulta), é feito por profissionais da psiquiatria e neurologia. Bem como psicólogos.
Se nos permite, gostaríamos de indicar duas leituras que abordam o diagnóstico na fase adulta:
Autismo em adultos > https://genialcare.com.br/blog/diagnostico-autismo-em-adultos/
Diagnóstico tardio de TEA > https://genialcare.com.br/blog/diagnostico-tardio-de-autismo/
Esperamos te ajudado.
Feliz ano novo para você e toda sua família.
Abraços!
Li em algum lugar que para fechar o diagnóstico de tea o critério A deveria ser de 100% e os critérios B e C de 50%, caso não fossem supridos o diagnóstico seria de fenótipo ampliado de autismo. Observando isso fiquei com dúvidas pois por ser um espectro o nem tudo do critério A está presente. Poderia me sanar estas dúvidas ?
Olá, Iza. Como vai? Esperamos que muito bem!
Iza, não podemos julgar sua leitura, pois não sabemos a fonte dela. O podemos fazer, é reforçar o apoio de equipes multidisciplinares, tanto no diagnóstico quanto no tratamento.
Esperamos ter ajudado.
Feliz ano novo para você e sua família.
Abraço!
Falar alto ou baixo pode ser parte do 1° critério de diagnóstico?
Olá, Sofia. Como vai? Esperamos que muito bem!
Sofia, a intensidade da voz, seja ela alta ou baixa, isoladamente, não é um critério definitivo para o diagnóstico de autismo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um conjunto de condições complexas que envolvem diversas áreas do desenvolvimento, como a comunicação social e os comportamentos repetitivos.
Se nos permite, gostaria de indicar a leitura sobre sinais de autismo: https://genialcare.com.br/blog/sinais-de-autismo/
Esperamos ter ajudado.
Forte abraço!