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Pai exercendo métodos para alcançar a previsibilidade com seu filho autista

Previsibilidade no autismo: como e por que tornar a rotina mais compreensível

Esse conteúdo passou por revisão clínica de Alice Tufolo, Psicóloga e Conselheira clínica da Genial Care | CRP 06124238


A previsibilidade no autismo é uma forma de ajudar as crianças a compreenderem com antecedência o que acontecerá em determinada situação, o que é esperado dela, quando e com quem ela estará, quanto uma atividade deve durar, como ela termina, entre outros cenários.

Garantir previsibilidade para crianças autistas não é o mesmo que estabelecer uma rotina que nunca muda.

É oferecer informações acessíveis para a criança conseguir se preparar para o que está por vir ou para o que pode acontecer e atravessar esses momentos com os apoios de que precisa.

Neste artigo, você entenderá:

  • por que situações imprevisíveis podem ser difíceis para algumas crianças autistas;
  • a importância de oferecer previsibilidade no autismo;
  • quais estratégias você pode utilizar; e
  • como oferecer apoio quando os planos mudam.

Continue a leitura.

O que é previsibilidade no autismo?

Previsibilidade no autismo é a possibilidade de a criança ter informações antecipadas e compreensíveis sobre uma situação, atividade, demanda ou mudança.

Ela é construída quando oferecemos informações adequadas às formas de compreensão e comunicação da criança para ela entender o que acontecerá, o que esperar de uma situação e contar com uma alternativa segura para o caso de algo sair do planejado.

Em vez de dizer apenas “vamos sair”, por exemplo, o adulto pode explicar:

“Depois do almoço, vamos de carro ao mercado com a mamãe. Vamos comprar frutas e legumes e você poderá escolher uma comida ou um brinquedo. Depois das compras, voltaremos para casa e você tomará banho.”

Perceba que, neste exemplo, o adulto garante que a criança tenha várias informações antecipadas. Com elas, a criança conseguirá organizar mentalmente:

  • para onde vai;
  • como vai;
  • com quem vai;
  • o objetivo de ir até o mercado;
  • se ela terá oportunidade de escolha;
  • o que acontecerá quando voltar para casa.

Nem sempre será possível responder a todas as perguntas ou prever exatamente como uma situação acontecerá.

Ainda assim, compartilhar as informações disponíveis pode tornar o acontecimento mais previsível e confortável para a criança autista.

Previsibilidade no autismo e rotina são a mesma coisa?

Não.

Rotina diz respeito à organização ou à repetição de atividades ao longo do tempo.

Previsibilidade está relacionada à possibilidade de compreender o que está acontecendo, o que acontecerá depois e, quando necessário, o que mudou ou mudará.

Uma rotina ainda pode ser pouco previsível, por exemplo, se os adultos alteram combinados sem aviso prévio ou utilizam expressões vagas, como “depois” ou “mais tarde”, sem que a criança compreenda o que elas significam naquela situação.

Da mesma forma, um dia diferente do habitual pode se tornar mais compreensível quando suas principais etapas são antecipadas para a criança.

Previsibilidade no autismo não significa manter tudo sempre igual

Imprevistos e mudanças fazem parte da vida.

Promover previsibilidade no autismo não significa que o dia não possa sofrer qualquer mudança ou preparar a criança para todas as situações possíveis.

Significa comunicar aquilo que já é possível saber e oferecer o apoio adequado quando algo sair do planejado.

Não é necessário mudar estruturas e rotinas somente para a criança “aprender a ser flexível”.

Lembre-se de que os adultos também seguem uma rotina previsível ao ter hora para acordar, para dormir, para ir ao trabalho, além de usar apoios como calendário para lembrar-se de um evento importante.

O objetivo da previsibilidade no autismo é criar condições para a criança compreender que mudanças podem acontecer e quais ferramentas ela possui para lidar com elas.

Por que a imprevisibilidade pode ser difícil para algumas crianças autistas?

Não existe uma única explicação para algumas crianças autistas terem dificuldade de lidar com a imprevisibilidade.

A resposta a uma mudança ou situação inesperada depende:

  • do perfil da criança;
  • de suas experiências anteriores;
  • do repertório que ela já possui;
  • da forma como a situação surgiu;
  • das demandas do novo contexto; e
  • de como ela está física e emocionalmente naquele momento.

Por isso, dizer somente que a criança não lida bem com imprevisibilidade pode interromper uma investigação importante sobre aquilo que tornou a situação difícil.

Algumas possibilidades para a dificuldade de lidar com a imprevisibilidade, no entanto, podem incluir:

  • incerteza e ansiedade;
  • transições e mudanças de expectativa;
  • comunicação e compreensão do que acontecerá;
  • demandas sensoriais, cognitivas e emocionais.

Entenda cada uma delas a seguir.

Incerteza e ansiedade

Não saber o que acontecerá pode exigir que a criança considere diferentes possibilidades e lide com informações ainda incompletas.

Uma pesquisa encontrou uma associação entre dificuldade em lidar com a incerteza e o desenvolvimento de ansiedade em pessoas autistas. Isso, porém, não significa que toda pessoa autista tenha essa dificuldade nem que toda ansiedade seja provocada pela imprevisibilidade (Jenkinson, Milne & Thompson, 2020).

Outro estudo com jovens autistas também encontrou relações entre intolerância à incerteza e dificuldades de regulação emocional (Vasa et al., 2018).

Esses resultados ajudam a investigar possíveis relações, mas não devem ser utilizados para presumir a experiência de cada criança.

Transições e mudanças de expectativa

Encerrar uma brincadeira, sair de casa, trocar de sala ou encontrar um novo terapeuta pode exigir um grande esforço de adaptação do cérebro da criança.

A criança pode precisar interromper algo que estava fazendo e recalcular a rota, compreender por que o plano mudou, organizar o próximo passo e iniciar uma nova atividade.

Tudo isso pode gerar um excesso de sobrecarga, uma vez que o cérebro permanece em estado de alerta tentando encontrar maneiras de “sobreviver” à nova situação.

Além disso, a reação pode estar relacionada à perda de algo importante para a criança ou ao rompimento de uma expectativa construída anteriormente.

Comunicação e compreensão do que acontecerá

Uma orientação pode parecer clara para o adulto e ainda deixar dúvidas para a criança.

Expressões como “espere um pouco”, “depois a gente vê” ou “mais tarde você volta” podem não informar quanto tempo será necessário esperar ou o que precisa acontecer antes.

Além disso, quando a criança encontra barreiras para perguntar, negociar, recusar ou comunicar desconforto, uma situação imprevisível pode se tornar ainda mais difícil.

Por isso, a previsibilidade também depende de comunicação acessível, e não apenas da existência de uma rotina organizada.

Leia também: Como ensinar a criança autista a lidar com “não” e “espere”.

Demandas sensoriais, cognitivas e emocionais

Às vezes, a dificuldade da criança não está somente na mudança.

O novo plano pode envolver barulho, iluminação intensa, pessoas desconhecidas, muitas instruções ao mesmo tempo ou uma atividade que exige grande esforço.

Cansaço, fome, dor, ansiedade e sobrecarga também podem influenciar como a criança responde à imprevisibilidade.

Como a previsibilidade pode ajudar a criança autista?

Quando adequada às necessidades da criança, a previsibilidade no autismo pode tornar situações mais compreensíveis e oferecer melhores condições para ela se preparar para o novo ou inesperado.

Algumas das formas pelas quais a previsibilidade pode ajudar a criança autista são:

  • compreensão da rotina;
  • preparação e regulação emocional ou sensorial;
  • autonomia e participação;
  • transições entre atividades.

A seguir, explicamos mais sobre elas.

Compreensão da rotina

Mãe dando previsibilidade para filho sobre o dia que vão se divertir

Ao oferecer previsibilidade sobre a rotina da criança, ela pode compreender melhor:

  • quais atividades precisa fazer ao longo do dia;
  • em qual ordem elas provavelmente acontecerão;
  • em que momento ela terá a oportunidade de escolher o que deseja fazer;
  • o que é uma tarefa fixa;
  • o que pode ser flexível nessa rotina;
  • quando e quanto tempo falta para acontecer um evento importante para ela.

A previsibilidade na rotina também pode ajudar a criança a não criar expectativas sobre o que não é possível acontecer naquele momento, mostrando a ela quando o que ela deseja estará disponível.

Preparação e regulação

Saber antecipadamente que uma situação acontecerá pode permitir que a criança se prepare e tenha acesso a apoios que a auxiliem na autorregulação caso necessário.

Se ela sabe que visitará um ambiente movimentado, por exemplo, ela pode:

  • levar um objeto que lhe garanta conforto;
  • compreender como pode solicitar uma pausa se precisar; ou
  • mapear onde poderá ficar caso precise de um momento com menos estímulos.

É importante ressaltar que a previsibilidade oferece informação e possibilidade de preparação, não controle absoluto sobre o que a criança sentirá em determinada situação.

Autonomia e participação

Quando compreende melhor o plano, a criança pode ter mais oportunidades de fazer escolhas, recusar, negociar ou organizar aquilo que faz sentido para ela participar.

Transições entre atividades

Informar como uma atividade começa e termina e qual será a próxima tarefa que ela precisa cumprir pode diminuir lacunas de informação durante uma transição.

Quando possível, também pode ser relevante combinar se e quando a atividade interrompida poderá ser retomada.

Como criar previsibilidade no dia a dia da criança autista?

Criar previsibilidade no autismo não exige antecipar todos os detalhes de cada dia.

O mais importante é identificar quais informações realmente ajudam aquela criança a compreender e se manter disponível para participar, e quais alternativas ela tem quando acontece uma mudança de planos.

Algumas estratégias que você pode adotar são:

  1. explicar o que vai acontecer de forma clara;
  2. antecipar mudanças sempre que possível;
  3. mostrar também o que continuará igual;
  4. apresentar um plano alternativo quando ele realmente existir.

Entenda cada estratégia a seguir.

Explique o que vai acontecer de forma clara

Considere as formas de comunicação da criança e o que ela já compreende para explicar o que acontecerá em determinada situação, como acontecerá, o objetivo daquilo, o que é esperado dela e quando termina.

A quantidade de informação também deve ser compatível com o que a criança consegue acompanhar.

Em vez de dizer somente “vamos ao médico”, você pode comunicar:

  • Depois do café, vamos de carro à consulta.
  • Ao chegar no consultório, vamos esperar nossa vez.
  • Quando a médica chamar, ela vai conversar com você e pode precisar te examinar.
  • Quando a consulta terminar, voltaremos para casa.

Informe aquilo que já é possível saber sem prometer detalhes que ainda podem mudar.

Se houver a oportunidade, você pode criar histórias narrativas do ponto de vista da criança para mostrar visualmente o que acontecerá.

Dicas de rotina para previsibilidade com etapas diferentes do dia

Nesse caso, leve a história junto para ir mostrando em qual parte dela vocês estão.

Mostre o que acontecerá depois

Saber o que vem a seguir pode ajudar a criança a compreender quando uma situação começa, termina e o que ela poderá fazer depois.

Um apoio que continue disponível mesmo após a fala, como uma imagem, um post-it ou uma anotação, pode ser mais útil do que repetir verbalmente a mesma explicação.

Um recurso visual simples que você também pode usar é o quadro “antes e depois”. Ele ilustra o que a criança precisa fazer agora e o que acontecerá em seguida.

Antes e depois de tratativas de previsibilidade

Antecipe mudanças sempre que possível

Quando um plano mudar, comunique a alteração para a criança e explique o motivo.

Se você combinou de ir à praia mas viu na previsão do tempo que irá chover, você pode explicar:

“Nós combinamos de ir à praia, mas vi na televisão que vai chover. Não dá para aproveitar a praia na chuva porque pode fazer frio e ser perigoso.”

Nem sempre avisar com muita antecedência será melhor. Para algumas crianças, saber antes aumenta a possibilidade de preparação. Para outras, uma antecipação muito distante pode prolongar a ansiedade.

O momento e a quantidade de informações precisam ser individualizados, conforme o perfil da criança e o que ela já compreende.

Se quiser entender mais sobre como ajudar a criança autista a lidar com mudanças, leia também: Regulação emocional no autismo: como lidar com as mudanças de rotina.

Mostre também o que continuará igual

Uma mudança não significa necessariamente que tudo será diferente.

Seguindo o exemplo da praia, você pode dizer:

“Não vamos conseguir ir à praia, mas você, o papai e eu podemos fazer outra coisa juntos.”

Destacar elementos que permanecem iguais ao plano inicial pode ajudar a criança a lidar melhor com a nova situação.

Apresente um plano alternativo quando ele realmente existir

Quando houver uma possibilidade concreta de mudança, apresente opções de plano B para a criança escolher.

Por exemplo:

“Se não chover, vamos ao parque. Se chover, você prefere fazer um piquenique na sala ou ir ao cinema?”

O plano B, porém, precisa ser uma possibilidade real.

Não apresente uma alternativa apenas para tranquilizar a criança se ela provavelmente não poderá acontecer.

Quais recursos podem aumentar a previsibilidade?

Previsibilidade do autismo

Os recursos usados para promover previsibilidade no autismo devem considerar a compreensão, a comunicação, as preferências e a rotina da criança. Mais informações nem sempre trazem mais clareza.

O NICE (National Institute for Health and Care Excellence) recomenda o uso de suportes visuais significativos para a criança, adaptações sensoriais e formas mais claras de organizar e comunicar atividades, transições e mudanças quando a falta de previsibilidade interfere no cotidiano.

Entre os recursos possíveis estão:

  • Rotinas e agendas visuais: apresentam atividades por meio de objetos, fotografias, desenhos, símbolos ou palavras. Podem mostrar a semana, o dia ou apenas uma sequência, como preparar-se para sair. Se o plano mudar, o recurso também precisa ser atualizado.
  • Quadros “antes e depois”: mostram a atividade atual e o que acontecerá em seguida, como “agora, consulta; depois, casa”. O “depois” precisa ser verdadeiro. Se algo não estiver disponível, comunique isso com clareza.
  • Timers e marcadores de tempo: relógios visuais, músicas e outras referências podem indicar quando uma atividade começará ou terminará. Como a contagem regressiva pode aumentar a ansiedade de algumas crianças, observe se o recurso realmente a ajuda.
  • Histórias narrativas: explicam situações, incluindo onde acontecerão, quem estará presente e quais etapas são esperadas. Se houver incertezas, elas também devem aparecer na narrativa, sem prometer que tudo ocorrerá exatamente como descrito.

Na prática clínica da Genial Care, escolhemos esses apoios conforme as necessidades de cada criança e os ajustamos com base em sua resposta.

Por meio da orientação parental, também podemos auxiliar a família a utilizá-los de forma mais adequada.

Dessa forma, buscamos apoiar o desenvolvimento da flexibilidade e autonomia da criança e ampliar suas formas de participação.

Quer conhecer melhor esses recursos e entender como adaptá-los? Leia mais em: Suportes visuais no autismo: guia prático para famílias e escolas.

Previsibilidade no autismo e flexibilidade podem existir juntas?

Sim. Oferecer previsibilidade no autismo não impede o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva.

Pelo contrário, tornar a situação compreensível pode oferecer melhores condições para que a criança perceba o que mudou, conheça alternativas e encontre recursos para reorganizar suas ações.

Como explica Alice Tufolo, psicóloga e conselheira clínica da Genial Care:

“Quando tornamos o mundo mais compreensível para uma criança, não estamos impedindo que ela aprenda a lidar com mudanças. Estamos oferecendo uma base mais segura para que essa aprendizagem aconteça.”

Vale destacar também que flexibilidade é importante diante das mudanças que fazem parte da vida, mas não deve ser uma exigência apenas da criança.

Como lembra Alice:

“Às vezes, esperamos que a criança seja flexível em contextos em que nós, adultos, não fomos suficientemente claros. A flexibilidade não pode ser uma exigência apenas da criança; o ambiente também precisa aprender a comunicar melhor as mudanças.”

Desenvolver flexibilidade pode envolver compreender que um plano mudou, conhecer novas possibilidades, comunicar o que está difícil de atravessar e acessar apoio para reorganizar-se. Não significa deixar de precisar de adaptações ou previsibilidade.

Toda criança autista precisa dos mesmos recursos de previsibilidade?

Não. Cada criança é única e pode responder de maneiras diferentes aos apoios que oferecem previsibilidade.

Uma criança pode compreender melhor fotografias, enquanto outra pode preferir palavras escritas, símbolos ou explicações faladas.

Algumas precisam visualizar várias etapas de uma sequência. Outras se organizam melhor quando recebem uma informação de cada vez.

O nível de detalhe e o momento da antecipação também podem variar.

Muitos símbolos, avisos ou planos alternativos apresentados ao mesmo tempo podem sobrecarregar a criança em vez de ajudá-la.

Por isso, a pergunta principal é: esse recurso está aumentando compreensão, autonomia e participação ou está criando mais uma demanda para a criança?

Os apoios também não precisam ser retirados simplesmente porque a criança cresceu ou aprendeu determinada habilidade.

Eles podem mudar de formato ao longo da vida. Uma criança que utiliza uma rotina com fotografias pode, mais tarde, preferir uma lista escrita ou um calendário digital, por exemplo.

Como explica Alice:

“Aprender a lidar com imprevistos não significa deixar de precisar de previsibilidade. Nós, adultos, também usamos agendas, calendários, lembretes e combinados para organizar a vida. Autonomia não é viver sem apoio, mas saber quais apoios nos ajudam e poder utilizá-los.”

Conclusão

Construir previsibilidade no autismo não significa organizar todos os detalhes da vida da criança nem impedir que mudanças aconteçam.

Significa compartilhar informações de uma forma que ela consiga compreender o que está acontecendo e utilizar a seu favor.

Também exige que os adultos observem como a criança está sendo informada sobre sua própria vida:

  • As instruções sobre o que ela precisa fazer estão claras?
  • Os combinados estão sendo cumpridos?
  • A criança sabe quando uma atividade começa e termina?
  • Ela dispõe de formas acessíveis para perguntar, recusar, negociar ou pedir ajuda?

Nem todos os acontecimentos poderão ser previstos. Ainda assim, é possível oferecer referências, comunicação e apoio sem exigir que a criança esconda sua frustração ou se adapte imediatamente a um novo cenário.

Na Genial Care, planejamos nossas intervenções considerando as singularidades de cada criança e a realidade da sua família, trazendo abordagens que fazem sentido para seu cotidiano.

Se você deseja saber mais sobre nosso modelo clínico e como apoiamos a autonomia da sua criança autista, acesse:

Conheça a Genial Care

Perguntas frequentes sobre previsibilidade no autismo

Por que pessoas autistas gostam de rotina?

Nem toda pessoa autista gosta ou precisa do mesmo nível de rotina.

Para algumas, sequências conhecidas podem reduzir incertezas, facilitar a organização das informações e tornar mais claro o que acontecerá depois.

Uma rotina também pode ser agradável ou envolver atividades e interesses importantes para aquela pessoa.

Mudança de rotina pode causar crise no autismo?

Uma mudança pode contribuir para uma desregulação emocional ou sensorial em algumas situações, especialmente quando representa uma quebra importante de expectativa, acontece sem comunicação prévia ou se soma a outras demandas, como cansaço, dor, ansiedade ou sobrecarga.

Isso não significa que toda alteração provocará uma crise nem que a mudança seja necessariamente a única causa.

É importante considerar o contexto e as necessidades daquela criança.

Como preparar uma criança autista para uma mudança?

Explique o que mudará, quando isso acontecerá, o que permanecerá igual e qual é o novo plano, utilizando a quantidade de informação que a criança consegue acompanhar.

Palavras, imagens, calendários, histórias narrativas, objetos ou recursos de CAA podem ser utilizados para informar conforme sua forma de compreensão e comunicação.

Também permita que a criança faça perguntas, valide suas recusas e atenda seus pedidos de apoio.

Rotina rígida é boa para crianças autistas?

Uma rotina compreensível pode ser um apoio importante para uma criança autista, mas o objetivo não é manter tudo idêntico ou impedir qualquer mudança.

Quando uma organização se torna tão rígida que reduz escolhas, participação ou acesso a atividades importantes, pode ser necessário compreender o que torna as mudanças difíceis e oferecer novos apoios.

Previsibilidade e flexibilidade podem coexistir.

Como usar suportes visuais para criar previsibilidade?

Escolha um formato que a criança consiga compreender e apresente apenas a quantidade de informação necessária.

Ensine como consultar o recurso, mantenha-o acessível e atualize a sequência quando o plano mudar.

Depois, observe se o suporte realmente aumenta compreensão e participação ou se gera apenas mais uma demanda para a criança.

Adapte o suporte quando for necessário.

Referências

Bird, S., Moid, L. A. E., Jones, C. A., & Surtees, A. D. (2024). The relationships between restrictive/repetitive behaviours, intolerance of uncertainty, and anxiety in autism: A systematic review and meta-analysis. Research in Autism Spectrum Disorders, 117, 102428.

Jenkinson, R., Milne, E., & Thompson, A. (2020). The relationship between intolerance of uncertainty and anxiety in autism: A systematic literature review and meta-analysis. Autism, 24(8), 1933-1944.

Neil, L., Olsson, N. C., & Pellicano, E. (2016). The relationship between intolerance of uncertainty, sensory sensitivities, and anxiety in autistic and typically developing children. Journal of autism and developmental disorders, 46(6), 1962-1973.

Vasa, R. A., Kreiser, N. L., Keefer, A., Singh, V., & Mostofsky, S. H. (2018). Relationships between autism spectrum disorder and intolerance of uncertainty. Autism Research, 11(4), 636-644.

https://www.nice.org.uk/guidance/cg170/chapter/recommendations

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