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Mãe com seus filhos autistas em férias na praia. Momento de flexibilidade cognitiva de ambos.

Férias e autismo: como desenvolver a flexibilidade cognitiva diante de imprevistos

Flexibilidade cognitiva é a capacidade do cérebro de se adaptar e encontrar novos meios para resolver um desafio mediante mudanças.

Imagine um cenário em que o pneu furou a caminho do parque. Ou que o restaurante favorito da família está com uma fila de espera de duas horas. Ou ainda que a praia ensolarada deu lugar a uma chuva torrencial. Nas férias escolares, por mais que tentemos planejar cada detalhe, os imprevistos acontecem.

Para uma criança neurotípica, essas mudanças são decepcionantes. Para uma criança no Transtorno do Espectro Autista (TEA), elas podem ser dolorosas e paralisantes.

Quando o plano falha, a rigidez cognitiva no autismo se manifesta não como um ato de teimosia, mas como uma resposta de sobrevivência.

Diante disso, como cuidadores podem ajudar a criança a desenvolver flexibilidade cognitiva e resiliência no exato momento em que as coisas dão errado? É sobre isso que falaremos neste artigo.

Por que imprevistos podem ser tão desafiadores para crianças TEA?

Antes de saber como agir na hora da sobrecarga, precisamos entender o que acontece no cérebro atípico. Como explica a psicóloga e conselheira clínica na Genial Care, Alice Tufolo, a rigidez cognitiva está ligada a uma dificuldade nas funções executivas, as funções de planejar, executar e criar alternativas:

Quando falamos de rigidez cognitiva, falamos de alguém que tem dificuldade de planejar, executar, criar. Ou seja, que repete as coisas da mesma forma devido a uma dificuldade de fazer essas coisas de um jeito diferente. Não é que aquele ser humano necessariamente precise fazer as coisas daquele jeito, mas ele desconhece outras formas de fazer.”

Diante do desconhecido, o sistema nervoso da criança no espectro lê a mudança como um caminho inseguro, ativando mecanismos involuntários de defesa que se manifestam através dos comportamentos de luta, fuga ou congelamento.

Além disso, é exigido um enorme esforço cognitivo da criança autista para ela “recalcular a rota” após um imprevisto ou uma mudança no ambiente. Essa exigência contínua de adaptação rápida pode sobrecarregá-la ao ponto de tornar o momento doloroso e traumatizante.

O que é flexibilidade cognitiva no autismo?

Para a neurociência, a flexibilidade cognitiva é a capacidade automática do cérebro “recalcular rotas” mentais diante de obstáculos ou cenários desconhecidos a fim de encontrar a solução para um problema. Como explica Alice Tufolo, ela funciona como um “Waze mental”: quando o caminho do ponto A ao ponto B é bloqueado, um cérebro flexível consegue enxergar outras opções e escolher uma rota alternativa para resolver o problema.

No autismo, quando essa habilidade ainda está em desenvolvimento, a rigidez cognitiva assume o controle. Isso significa que a criança insiste no plano original porque ela genuinamente não tem repertório para optar por um caminho diferente.

A terapeuta ocupacional na Genial Care, Alessandra Peres, ressalta que desenvolver essa flexibilidade é vital porque reduz o sofrimento e a frustração do dia a dia, ensinando a criança que, se o plano principal falhou, ela ainda está segura e pode fazer novas escolhas.

Intervenções para crianças TEA: como desenvolver a flexibilidade cognitiva no momento do imprevisto

Quando o imprevisto acontece, exigir “maturidade” de uma criança que se desorganizou e não possui ferramentas suficientes para voltar ao estado de homeostase é injusto e ineficaz. É preciso oferecer um suporte que sirva como elo seguro entre o cenário atual e a resolução do problema, auxiliando-a em sua regulação emocional.

A seguir, você verá como práticas clínicas baseadas em evidências podem ajudar a criança a lidar com o momento da quebra de expectativa, passando pelos seguintes passos:

  1. Pause e autorregule-se.
  2. Desça o nível de exigência e valide o corpo da criança.
  3. Reduza a carga sensorial e verbal.
  4. Ofereça a solução.

Mas, atenção: cada criança é única e possui suas singularidades. Estas práticas servem como ponto de partida, porém, cada criança pode responder aos estímulos de maneiras diferentes.

1. Pause e autorregule-se

Na Genial Care, partimos da premissa de que um corpo regulado corregula o outro. Antes de falar com a criança, respire fundo e controle sua própria frustração. Se você reagir ao imprevisto com desespero ou irritabilidade, o cérebro da criança lerá o ambiente como hostil e a sobrecarga será inevitável. Sua calma será a primeira ferramenta de segurança dela.

2. Desça o nível de exigência e valide o corpo da criança

Não tente ensinar conceitos complexos ou propor soluções imediatamente. Primeiro, ofereça a corregulação: aproxime-se de forma acolhedora e use um tom de voz tranquilo. Valide as sensações físicas que a criança está manifestando para ajudá-la a tomar consciência de si: “Estou vendo que suas mãos estão apertadas e suas pernas estão agitadas. Seu corpo ficou assustado porque nosso plano mudou. Está tudo bem sentir isso. Vamos dar um jeito.”.

3. Reduza a carga sensorial e verbal

No momento da desorganização, é natural o processamento auditivo da criança ficar comprometido. Evite frases longas ou explicações detalhadas sobre o porquê do imprevisto. Fale menos. Se o ambiente estiver barulhento ou cheio, como um restaurante lotado, retire a criança do foco do estímulo por alguns instantes para que o sistema sensorial dela possa desacelerar.

4. Ofereça a solução

Uma vez que o corpo da criança deu sinais de que saiu do modo de alerta, é hora de apresentar uma nova rota. Não pergunte “O que você quer fazer agora?” porque perguntas abertas geram ainda mais sobrecarga cognitiva.

Em vez disso, ofereça duas opções fechadas de caminhos seguros: “O parquinho fechou. Agora nós podemos ir tomar um sorvete ou voltar para casa e jogar videogame. Qual você prefere?”.

Ferramentas para “recalcular a rota” e trabalhar a flexibilidade cognitiva

Substituir o plano que deu errado por um novo exige estratégia. Nossa equipe clínica usa abordagens práticas que podem ser facilmente adaptadas para o contexto das férias em família.

Use a “regra do sorteio”

Se a criança apresenta extrema rigidez quanto a quem deve realizar uma tarefa, por exemplo quem a levará ao passeio, ou qual caminho seguir, crie a cultura do sorteio. Quando o imprevisto acontecer, em vez de debater, use um recurso lúdico neutro, como um dado, moedas ou papéis em um saquinho.

O cérebro atípico, que valoriza regras, pode aceitar com mais facilidade a mudança quando ela é mediada por uma nova regra preestabelecida: “Nós seguimos o que o sorteio decidir”.

O hiperfoco como um regulador de emergência

Se o plano mudou e a frustração é inevitável, não tente forçar a criança TEA a se interessar por uma atividade “típica” de férias para compensar.

Use o hiperfoco dela com responsabilidade como um refúgio seguro. O interesse profundo ativa áreas de prazer e organização mental no cérebro atípico, funcionando como um excelente regulador emocional após a sobrecarga gerada pelo imprevisto.

Histórias narrativas e suportes visuais

Mais importante do que lidar com imprevistos é garantir a previsibilidade para a criança TEA. Use histórias narrativas ou pranchas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) para estruturar não apenas o cenário ideal (Plano A), como também a rota de fuga caso algo dê errado (Plano B).

Ao ir ao parque, por exemplo, combine de antemão: “Se chover (imprevisto), voltaremos para casa para jogar videogame (Plano B)”.

Leve esse recurso visual com vocês e, durante o passeio, vá narrando e validando as etapas em tempo real: “Chegamos ao parque! Se começar a chover, você lembra qual é o nosso combinado?”.

Essa validação constante funciona como um mapa físico que ancora a criança na segurança do que foi previamente combinado.

Flexibilidade cognitiva é repertório, não obediência

Muitas vezes, confundimos uma criança flexível com uma criança obediente (compliant). No entanto, forçar a criança a suportar o imprevisto apenas para manter a conveniência dos adultos impede o desenvolvimento de sua autonomia.

O objetivo de intervir no momento do imprevisto não é silenciar o choro, mas ensinar a criança a comunicar sua insatisfação de forma funcional e mostrar que ela tem poder de escolha sobre os caminhos alternativos.

O desenvolvimento das funções executivas, que permitem ao cérebro pausar, avaliar e mudar de direção, é um processo biológico gradual. Cada imprevisto contornado com acolhimento e mediação não é uma falha nas férias, mas sim uma oportunidade de conduzir a plasticidade cerebral.

Conclusão

Desenvolver a flexibilidade cognitiva no autismo e aprender a lidar com os imprevistos da vida é um ganho de repertório que a criança TEA levará para sempre.

Lembre-se sempre de que as férias perfeitas só existem em comerciais de televisão. Quando as coisas desviarem do que foi planejado, respire, acolha e ajude a criança a perceber seus sinais de sobrecarga e a descobrir ferramentas para recalcular a rota. É na segurança desse vínculo que a verdadeira autonomia acontece.

Se você deseja entender mais sobre o modelo clínico da Genial Care e como ajudamos sua criança TEA a desenvolver a flexibilidade cognitiva para conquistar autonomia, navegue pela seção dedicada à nossa metodologia:

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