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Masking, uma das formas pelas quais a camuflagem social pode aparecer, acontece quando uma pessoa esconde, controla, modifica e/ou substitui aspectos da própria forma de agir ou se comunicar para se aproximar das expectativas sociais de determinado ambiente.
No autismo, isso pode envolver conter estereotipias, forçar contato visual, copiar formas de interação ou suportar desconfortos sem demonstrá-los.
Essas estratégias podem ser intencionais, assim como podem se tornar progressivamente automatizadas ao longo do tempo.
É importante ressaltar que modificar comportamentos de acordo com determinado contexto não é algo exclusivo de pessoas autistas.
Neste artigo, porém, falaremos especificamente sobre o masking no autismo, que pode exigir esforço social, cognitivo, emocional e sensorial relevante.
Mais do que isso, a camuflagem pode fazer com que algumas pessoas tenham dificuldade para reconhecer ou expressar suas próprias preferências, necessidades e formas de ser.
Continue a leitura para entender:
- o que é masking no autismo;
- como pode aparecer na infância e adolescência;
- por que algumas pessoas autistas recorrem a ele;
- quais impactos podem estar associados à camuflagem social; e
- como diferenciar desenvolvimento de habilidades da imposição de um padrão de comportamento.
Acompanhe!
O que é masking e qual a relação com camuflagem social?

Masking, traduzido do inglês como “mascarar”, é uma forma de camuflagem na qual a pessoa modifica ou oculta aspectos do próprio comportamento para corresponder melhor às expectativas percebidas em determinado contexto ou ambiente.
Alguns exemplos de masking no autismo são:
- controlar movimentos;
- imitar expressões e gestos;
- monitorar a própria maneira de falar; ou
- tentar esconder desconfortos.
Essas estratégias variam de pessoa para pessoa e entre diferentes ambientes.
O masking pode se desenvolver, por exemplo, quando a pessoa percebe, ao longo de suas experiências, que determinadas formas de se movimentar, comunicar ou interagir recebem correções, julgamentos, bullying ou rejeição.
Com o tempo, algumas dessas respostas podem se tornar cada vez mais habituais, a ponto de, para algumas pessoas, dificultar a percepção sobre quais comportamentos refletem suas próprias preferências, necessidades e formas de se expressar e quais foram aprendidos para atender às expectativas da sociedade.
Masking, compensação e assimilação são a mesma coisa?
Não exatamente. A literatura científica utiliza diferentes conceitos e classificações para descrever a camuflagem social, e ainda não existe uma divisão universalmente aceita.
No entanto, de forma resumida, podemos diferenciar essas estratégias da seguinte forma:
- Compensação: estratégias utilizadas para lidar com dificuldades percebidas em situações sociais, como ensaiar previamente o que dizer em uma conversa;
- Masking: formas de esconder características autistas ou apresentar uma imagem mais próxima da expectativa social, como forçar contato visual ou conter uma estereotipia por receio de julgamento;
- Assimilação: esforços para se integrar ou passar despercebido em determinadas situações sociais, como observar e reproduzir a forma como outras pessoas interagem para saber como agir.
Essas categorias ajudam a estudar os conceitos, mas não são uma classificação definitiva de todas as formas de camuflagem.
Por que uma pessoa autista pode recorrer ao masking?
Uma pessoa autista pode recorrer ao masking para:
- buscar pertencimento e conexão social, tentando se aproximar das expectativas de determinado grupo;
- evitar julgamento ou rejeição, principalmente após experiências negativas anteriores;
- reduzir conflitos, modificando comportamentos que percebe serem mal compreendidos; ou
- se proteger em ambientes nos quais determinadas características autistas não são bem aceitas.
Como explica a psicóloga e conselheira clínica da Genial Care, Alice Tufolo:
“O ser humano é um ser de grupo. É um ser que necessita se sentir pertencente. Pessoas autistas muitas vezes acabam mascarando alguns dos seus jeitos, algumas das suas formas de ser, para pertencer ao grupo.”
Na adolescência, as relações sociais podem se tornar mais complexas, portanto, o masking pode acontecer por:
- medo de bullying, estigma, humilhação;
- receio de serem tratados de maneira diferente;
- desejo de fazer amizades e pertencer a determinados grupos.
Por isso, é importante não responsabilizar a pessoa autista por ter desenvolvido camuflagem, mas investigar quais demandas, barreiras e experiências tornaram essa estratégia necessária e como o ambiente pode ser modificado para reduzir essa necessidade.
Quais são os sinais e exemplos de masking no autismo?
Não existe um único comportamento que confirme masking. A camuflagem precisa ser compreendida considerando contexto, experiência e repertório da pessoa e esforço envolvido.
Alguns exemplos podem incluir:
- Supressão de estereotipias: conter estereotipias ou outros movimentos regulatórios por receio da reação das outras pessoas.
- Evitar tópicos de interesse pessoal: deixar de falar sobre assuntos importantes para si por medo de julgamento, estranhamento ou excessividade.
- Camuflar dificuldades de compreensão ou comunicação: fingir ter entendido algo, monitorar constantemente expressões faciais ou modificar a própria forma de falar conforme o ambiente.
- Forçar contato visual: sustentar contato visual mesmo quando ele causa desconforto para corresponder a uma expectativa social.
- Copiar linguagem e entonação: reproduzir formas de falar utilizadas por outras pessoas para se aproximar do estilo de comunicação do grupo.
- Ensaiar interações: preparar previamente conversas, respostas ou roteiros sociais para saber o que dizer.
- Esconder desconfortos sensoriais: suportar ruídos, luzes, texturas ou outros estímulos sem comunicar a necessidade de pausa ou adaptação.
Também é importante fazer o movimento contrário. Observar outras pessoas, aprender convenções sociais ou preparar-se para uma conversa não é necessariamente masking.
Uma pessoa autista pode querer desenvolver determinadas habilidades porque elas fazem sentido para seus próprios objetivos.
A grande questão é: essa habilidade amplia possibilidades de comunicação, autonomia e escolha ou exige que a pessoa esconda aspectos de si para ser considerada “aceitável”?
Quais podem ser os impactos do masking?
O esforço frequente para monitorar comportamentos, interpretar expectativas sociais, controlar movimentos e esconder necessidades pode estar associado a diferentes impactos, que variam entre pessoas e contextos.
Entre eles estão:
- Exaustão e necessidade de recuperação: sustentar continuamente estratégias de camuflagem pode exigir grande gasto de energia.
- Estresse e sobrecarga: monitorar o próprio comportamento e lidar simultaneamente com demandas sociais ou sensoriais pode sobrecarregar a pessoa.
- Impactos na saúde mental: o masking no autismo pode estar relacionado a indicadores como ansiedade e sofrimento psicológico, embora não signifique que seja sua causa isolada.
- Dificuldade para comunicar limites: esconder desconfortos pode tornar menos visível para outras pessoas quando apoio, pausa ou mudança são necessários.
- Dificuldades na interocepção: algumas pessoas podem ter dificuldade para perceber ou priorizar necessidades internas quando passam muito tempo direcionando atenção às expectativas externas.
- Impactos sobre identidade e autoconhecimento: algumas pessoas autistas podem ter dificuldade de distinguir aquilo que fazem espontaneamente daquilo que aprenderam a apresentar para serem aceitas.
- Diagnóstico tardio ou não identificação: características menos visíveis em determinados contextos podem contribuir, junto a outros fatores, para o autismo demorar mais a ser reconhecido.
- Possível relação com burnout autista: o esforço prolongado de camuflagem pode fazer parte de um conjunto maior de demandas associadas ao desgaste.
Alice Tufolo explica:
“As pessoas autistas, para pertencer, em muitos momentos levam seu sistema nervoso a uma sobrecarga gigantesca. E aí entra uma escolha que acaba sendo cruel, que é: ‘eu pertenço a um grupo ou eu sou quem eu sou? Eu respeito as minhas necessidades? Eu respeito a minha forma de ser no mundo?’. Essa escolha não deveria acontecer. É um direito de todo ser humano poder ser quem é e ainda assim pertencer a um grupo.”
Os impactos do masking precisam ser compreendidos dentro do contexto de cada pessoa.
Mas, embora possa ter custos importantes, a camuflagem também pode cumprir uma função de proteção ou adaptação em determinados ambientes.
Por isso, o objetivo não deve ser simplesmente fazer a pessoa parar de mascarar, mas compreender o que torna essa estratégia necessária e quais mudanças podem ampliar as possibilidades de escolha da pessoa autista.
Masking causa burnout autista?
Não é adequado tratar o masking como única causa de burnout autista.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 que reuniu 48 estudos sobre a experiência de burnout em pessoas autistas (Ali et al., 2025), por exemplo, identificou a camuflagem crônica entre os fatores associados ao burnout, junto de estigma social, demandas cotidianas e sobrecargas vivenciadas pelas pessoas autistas.
Portanto, o masking pode fazer parte desse desgaste, especialmente quando há exigência prolongada de adaptação e pouco espaço para recuperação, mas não explica, por si só, o burnout autista.
Como o masking pode aparecer na infância e na adolescência?
Crianças e adolescentes autistas podem apresentar masking, mas a camuflagem nem sempre é fácil de perceber somente pelo comportamento observável. Além disso, as pesquisas sobre masking em crianças e adolescentes ainda são mais limitadas do que em adultos, por isso esses sinais devem ser interpretados com cautela e sempre considerando o contexto da criança.
Ainda assim, na infância, alguns sinais que podem merecer investigação incluem:
- Ficar muito quieta em determinados ambientes: mesmo quando, em outros contextos, a criança se comunica ou se movimenta de outra maneira.
- Controlar movimentos por longos períodos: ela pode evitar estereotipias ou outras formas espontâneas de regulação em público.
- Apresentar grandes diferenças entre ambientes: demonstra pouco desconforto na escola, por exemplo, mas precisa de recuperação em casa.
Apesar dos sinais, nenhum desses comportamentos isolados confirma o masking no autismo. Por isso, diferenças percebidas pela família podem ser levadas à equipe multidisciplinar que acompanha a criança.
Na orientação parental da Genial Care, por exemplo, família e terapeutas podem compartilhar observações de diferentes contextos para compreender:
- o que aquele comportamento comunica;
- quais demandas estavam presentes no momento em que ele foi apresentado; e
- quais apoios podem ser necessários quando há indícios de camuflagem, para que o masking não seja a única opção dessa criança.
Já na adolescência, as relações sociais podem vir com novas regras implícitas, grupos, expectativas de pertencimento e questões relacionadas à própria identidade e, assim, o masking pode aparecer.
Alguns adolescentes podem, por exemplo:
- ensaiar mais cuidadosamente o que dizer antes de encontros sociais quando sentem que precisam monitorar cuidadosamente sua forma de interagir para serem aceitos;
- copiar gírias e formas de interação de grupos específicos para esconder sua forma espontânea de se comunicar ou evitar julgamentos;
- evitar falar sobre interesses por receio de julgamento; ou
- esconder necessidades sensoriais para permanecer com os colegas.
Lembre-se de que esses são exemplos possíveis, não características universais da adolescência autista. Cada pessoa autista pode desenvolver respostas diferentes às demandas sociais.
Masking significa que a pessoa está regulada?
Não, masking não significa necessariamente que a pessoa está regulada. Uma pessoa autista pode apresentar um comportamento considerado tranquilo ou organizado pelas pessoas ao redor e, ainda assim, estar fazendo um grande esforço para sustentá-lo.
Esse é um cuidado importante porque observar apenas aquilo que aparece externamente pode fazer com que as necessidades dessa pessoa passem despercebidas.
Como explica Alice Tufolo:
“Uma criança parecer tranquila, obediente ou socialmente adequada não significa que esteja confortável e regulada. Precisamos olhar além do comportamento observável e compreender quanto esforço ela está fazendo para permanecer naquele ambiente e qual é o custo disso depois.”
Na prática, isso significa investigar mais do que o “bom comportamento”. É importante observar:
- quanto esforço aquela situação exige;
- os sinais corporais de desconforto;
- diferenças de comportamentos entre ambientes;
- como a própria criança comunica que se sente;
- necessidade de pausa e recuperação;
- demandas sensoriais;
- demandas sociais; e
- esforço cognitivo e executivo.
Por isso, regulação não deve ser avaliada somente pelo comportamento que os adultos consideram adequado.
É preciso compreender também como a criança está vivenciando aquela experiência e se o ambiente oferece formas de comunicar desconforto e acessar os apoios de que ela precisa.
A criança se comporta bem na escola e se desregula em casa: isso é masking?
Não necessariamente. Uma diferença grande entre escola e casa merece investigação, mas não confirma masking.
Cansaço, fome, transições, sobrecarga sensorial, esforço executivo e demandas sociais acumuladas também podem contribuir para a desregulação e o estresse infantil.
Além disso, a casa pode ser o ambiente no qual a criança se sente segura para finalmente demonstrar desconforto.
Por isso, antes de concluir que houve masking, é importante entender o que aconteceu ao longo do dia, quais demandas foram feitas, quais sinais a criança apresentou e quais apoios estavam disponíveis.
Masking pode dificultar o diagnóstico de autismo?
Sim. A camuflagem pode contribuir para que características relacionadas ao autismo fiquem menos perceptíveis em alguns contextos e, assim, participar de processos de diagnóstico tardio ou não identificação.
Isso pode acontecer especialmente quando a avaliação depende muito do comportamento observado em um único momento ou ambiente e não considera suficientemente:
- a história de desenvolvimento infantil da pessoa
- suas experiências internas; e
- as diferenças de comportamento entre contextos.
Por isso, uma avaliação de diagnóstico de autismo precisa reunir diferentes fontes de informação e compreender a trajetória da pessoa para além de uma fotografia de seu comportamento em determinado momento.
Camuflagem social e autismo em mulheres
A discussão sobre masking em meninas e mulheres autistas merece atenção porque o conhecimento clínico sobre o autismo foi historicamente construído com maior representação masculina.
Uma das hipóteses investigadas é que expectativas sociais relacionadas ao gênero e estratégias de camuflagem possam contribuir para alguns sinais de autismo serem menos percebidos e para trajetórias diagnósticas mais tardias.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou, em média, níveis maiores de camuflagem social entre mulheres autistas do que entre homens autistas nos estudos analisados, incluindo estratégias de masking e compensação (Cancino-Barros et al., 2025).
Isso pode tornar algumas características do autismo menos perceptíveis externamente, especialmente quando a pessoa aprende formas de lidar com situações sociais que fazem suas dificuldades parecerem menores do que realmente são.
Ao mesmo tempo, a literatura científica não é completamente uniforme. Outra revisão sobre camuflagem ressalta diferenças entre estudos, instrumentos e contextos, além da necessidade de novas pesquisas (Klein et al., 2025).
Portanto, não é correto afirmar que meninas e mulheres necessariamente fazem mais masking ou que só o fato de existir camuflagem explica o diagnóstico tardio do autismo nesses grupos.
O mais importante é compreender e reduzir as barreiras que fazem com que isso aconteça.
Você pode entender mais sobre o autismo em meninas neste conteúdo: É mais difícil diagnosticar autismo em meninas?
Ensinar habilidades sociais é o mesmo que ensinar masking?

Uma dúvida que pode surgir é se, durante as terapias para autismo, são ensinados comportamentos que levam a criança a mascarar características autistas para parecer mais próxima de um padrão neurotípico. Aqui na Genial Care, essa não é a finalidade das intervenções.
Ensinar habilidades sociais, de comunicação ou de autonomia é diferente de ensinar masking ou impor padrões de comportamento neurotípicos.
Nosso objetivo é ampliar as possibilidades de participação, escolha e segurança da criança autista, e não fazer com que ela esconda sua forma de se comunicar, se movimentar ou se regular para parecer mais “adequada” aos olhos das outras pessoas.
Segundo Alice Tufolo:
“Ensinar habilidades não pode significar ensinar uma criança autista a parecer menos autista. Na Genial, uma habilidade precisa ampliar autonomia, comunicação, segurança e participação, não apenas tornar seu comportamento mais confortável para as outras pessoas.”
No infográfico abaixo, você confere alguns exemplos práticos da diferença entre metas terapêuticas que ampliam autonomia, comunicação e participação e intervenções que acabam priorizando padronizar um comportamento e podem reforçar o masking.

Na prática, a diferença aparece no objetivo da intervenção.
Antes de definir uma meta terapêutica, algumas perguntas importantes orientam nossa tomada de decisão:
- Essa habilidade aumenta a segurança, autonomia, comunicação ou participação?
- Faz sentido para a criança?
- Existe outra maneira de alcançar o mesmo objetivo?
- O comportamento traz riscos para ela ou para outras pessoas ou apenas foge de uma expectativa social?
- Estamos oferecendo uma possibilidade ou impondo um único jeito de agir?
Por isso, uma meta terapêutica só faz sentido quando contribui para o bem-estar e para a vida da própria criança.
Como criar ambientes em que masking não seja a única opção?
Como você viu, a camuflagem social pode estar relacionada ao receio de julgamento, ao desejo de pertencimento ou à tentativa de se proteger da rejeição.
Pensando nisso, reduzir a necessidade de masking depende, principalmente, da transformação dos ambientes e das respostas das pessoas ao redor.
Em casa, na escola, na clínica ou em outros espaços, algumas atitudes podem contribuir:
- Construir ambientes informados sobre o autismo: educar a sociedade sobre o autismo para criar ambientes mais inclusivos.
- Aceitar diferentes formas de demonstrar atenção: entender que olhar diretamente para alguém não é a única maneira de mostrar que uma pessoa está ouvindo e entendendo.
- Não julgar movimentos regulatórios seguros: estereotipias não precisam ser interrompidas ou “corrigidas” apenas porque fogem de uma expectativa social.
- Disponibilizar pausas e recursos regulatórios: oferecer acesso a pausas e recursos regulatórios quando houver sinais de sobrecarga ou quando a própria pessoa comunicar essa necessidade.
- Garantir formas acessíveis de comunicação: disponibilizar recursos de comunicação adequados às necessidades de cada pessoa.
- Explicitar regras e expectativas: reduzir a necessidade de a pessoa autista ter de adivinhar normas sociais implícitas.
- Questionar expectativas sociais desnecessárias: compreender que nem toda expectativa social precisa se transformar em objetivo terapêutico. Se a necessidade de mudar um comportamento aparece somente para agradar outras pessoas e não para ampliar a autonomia, participação, escolha, segurança ou comunicação da pessoa no espectro autista, essa necessidade precisa ser questionada.
- Não condicionar afeto ou participação ao “bom comportamento”: aceitação e acesso não devem depender da capacidade de esconder desconfortos ou características autistas.
Quanto mais espaço houver para diferentes formas de comunicar, participar e se regular, menor tende a ser a pressão para a pessoa autista recorrer à camuflagem como única forma de pertencimento ou proteção.
Desmascarar é sempre seguro?
Nem sempre. Deixar de camuflar determinadas características é um processo delicado que, para algumas pessoas, pode favorecer uma expressão mais autêntica de si, mas também vir acompanhado de vulnerabilidade, medo de julgamento e consequências sociais.
Também envolve reconhecer uma identidade que pode ter se distanciado em meio ao masking.
Sendo assim, não é algo simples.
Por isso, frases como “é só parar de mascarar” ou “seja você mesmo” podem simplificar uma situação muito complexa.
Criar ambientes seguros e oferecer os apoios necessários pode ajudar a pessoa nesse processo, inclusive para ela própria poder avaliar onde, como e com quem se sente confortável para mostrar diferentes aspectos de si.
Respeitar diferenças significa nunca intervir em um comportamento?
Respeitar diferenças não significa ignorar comportamentos que causam dor, colocam a pessoa em risco ou limitam significativamente sua própria participação.
Quando isso acontece, a intervenção deve buscar:
- compreender a função daquele comportamento;
- investigar qual necessidade está envolvida;
- identificar condições ambientais que influenciam a situação;
- reduzir riscos; e
- ensinar alternativas mais seguras ou funcionais quando necessário.
A diferença está no objetivo.
Uma estereotipia que ajuda uma criança autista a se regular, por exemplo, não precisa ser eliminada somente por ser diferente. Já um comportamento que machuca a própria criança exige investigação e suporte.
Conclusão
Falar sobre masking no autismo também é falar sobre pertencimento. Quando uma pessoa sente que precisa controlar movimentos, esconder desconfortos ou modificar constantemente sua forma de se comunicar para ser aceita, participar de um grupo pode acabar exigindo um custo alto demais.
Por isso, o caminho não está em pedir que pessoas autistas escolham entre respeitar as próprias necessidades e fazer parte dos espaços ao seu redor.
Está em construir relações, escolas e outros ambientes em que diferentes formas de comunicar, interagir e se regular possam existir sem que a aceitação dependa de um único jeito de ser, porque pertencer, afinal, não deveria exigir que alguém escondesse partes de si.
Se você gostou deste conteúdo e quer entender mais sobre inclusão no autismo, baixe nosso material desenvolvido por pessoas autistas:
5 formas geniais de inclusão de pessoas autistas – por pessoas autistas
Dúvidas frequentes sobre masking no autismo
O que é masking no autismo?
Masking no autismo é uma estratégia de camuflagem na qual a pessoa esconde, modifica ou controla características, comportamentos ou necessidades para corresponder melhor às expectativas sociais de determinado ambiente. Pode envolver conter movimentos, forçar contato visual, copiar interações ou esconder desconfortos. As estratégias e os motivos variam entre pessoas e contextos.
Masking é sempre consciente?
Não. Algumas estratégias podem ser intencionais, enquanto outras se tornam automatizadas ao longo das experiências sociais. A literatura ainda utiliza diferentes formas de definir e classificar a camuflagem, por isso masking não deve ser entendido apenas como uma decisão consciente.
Crianças autistas podem fazer masking?
Sim. Crianças autistas podem apresentar camuflagem social, mas nenhuma característica isolada confirma masking. Diferenças entre ambientes, esforço, desconforto, necessidade de recuperação e a própria forma como a criança comunica sua experiência precisam ser consideradas em conjunto.
Masking pode acontecer na adolescência?
Sim. Adolescentes autistas também podem utilizar estratégias de camuflagem. Nessa fase, maior complexidade das relações, expectativas de pertencimento e regras sociais implícitas podem tornar a estratégia especialmente relevante, mas isso não significa que todos os adolescentes autistas façam masking.
Como saber se uma criança está fazendo masking na escola?
Não existe um sinal isolado que confirme masking na escola. É importante observar diferenças entre contextos e ambientes, esforço para acompanhar a rotina, sinais de desconforto, necessidade de recuperação e como a própria criança comunica sua experiência. Família e equipe terapêutica também podem compartilhar observações para compreender melhor o que está acontecendo.
Masking pode atrasar o diagnóstico de autismo?
Pode contribuir. A camuflagem pode tornar algumas características menos perceptíveis em determinados contextos. Por isso, avaliações que consideram múltiplos ambientes, a história de desenvolvimento e a experiência da própria pessoa ajudam a construir uma compreensão mais ampla.
Ensinar habilidades sociais para uma criança autista é masking?
Não necessariamente. Uma habilidade pode ampliar comunicação, segurança, autonomia e participação sem exigir que a criança esconda características próprias. A diferença está no objetivo: ampliar repertório e possibilidades de escolha ou impor uma única forma de comportamento para atender às expectativas das outras pessoas.
Masking causa burnout autista?
Não como causa isolada. A camuflagem crônica aparece na literatura como um dos fatores que podem contribuir para o desgaste, ao lado de sobrecarga, demandas prolongadas, estigma, ambientes pouco acessíveis e recuperação insuficiente.
O que é masking no autismo de nível 1?
Não existe um tipo específico de masking próprio do nível 1 de suporte. Pessoas autistas classificadas nesse nível também podem utilizar estratégias de camuflagem para esconder características, desconfortos ou necessidades e se adaptar às expectativas sociais.
O nível de suporte, porém, não indica quanto masking uma pessoa faz nem quanto esforço essas estratégias exigem. Além disso, as necessidades de apoio podem variar conforme o ambiente, a situação e diferentes áreas da vida.
Por isso, mesmo quando uma pessoa parece lidar bem com determinadas situações, é importante considerar seu esforço, suas necessidades, sua experiência e seu repertório para além do comportamento observável.
Fontes e referências:
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- Cancino-Barros, I., Villacura-Herrera, C., & Castillo, R. D. (2025). A meta-analytic review of quantification methods for camouflaging behaviors in autistic and neurotypical individuals. Scientific Reports, 15(1), 22885.
- Durben, D. L. (2026). Unmasking: A Mixed-Methods Study of Autistic College Students’ Efforts to Stop Masking/Camouflaging. Journal of Autism and Developmental Disorders, 1-20.
- Klein, J., Krahn, R., Howe, S., Lewis, J., McMorris, C., & Macoun, S. (2025). A systematic review of social camouflaging in autistic adults and youth: Implications and theory. Development and psychopathology, 37(3), 1320-1334.
- https://www.kelly-mahler.com/interoception-and-masking/
- https://www.kelly-mahler.com/interoception-and-masking-bonus-resources/
- https://www.kelly-mahler.com/resources/blog/my-5-take-aways-about-interoception-masking-monotropism/











