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Mães com sua filha no dia das volta às aulas. Elas caminham pela rua de mãos dadas.

Previsibilidade e readaptação: como preparar a volta às aulas da criança autista

A volta às aulas é um período que movimenta a rotina de toda a casa. Seja no início de um novo ano letivo ou no retorno das férias de julho, essa transição impacta diretamente a previsibilidade do dia a dia.

Para a criança autista, o momento pode ser desafiador. O corpo, já regulado no ritmo da casa e do descanso, precisa se readaptar a novos horários e espaços e às novas demandas sociais.

Nesse processo de reorganização, a família exerce um papel fundamental. O adulto funciona como o suporte regulatório da criança, que oferecerá segurança, conforto e previsibilidade em meio a um ambiente escolar tão dinâmico.

Neste artigo, trouxemos seis estratégias para você preparar a volta às aulas da criança autista e tornar a readaptação escolar um momento agradável e positivo. Acompanhe!

Por que a volta às aulas pode ser desafiadora para a criança no TEA?

A volta às aulas para uma criança autista vai muito além da adaptação de comportamento. É um desafio fisiológico e sensorial contínuo que demanda tempo, acolhimento e suporte individualizado. Isso porque o ambiente escolar traz consigo um imenso volume de novos estímulos sensoriais:

  • as luzes da sala de aula;
  • o barulho intenso do recreio;
  • o esbarrão nos corredores;
  • os aromas do refeitório; e
  • a movimentação constante de muitas pessoas.

Lidar com todas essas informações tira o corpo da criança do seu estado de equilíbrio. Para processar todos os estímulos e se manter organizada, essa criança terá de realizar um grande esforço adaptativo, o que pode sobrecarregá-la e levar seu sistema nervoso ao estado de alerta e insegurança.

Explicamos mais sobre isso no artigo: Regulação emocional no autismo: como lidar com as mudanças de rotina.

6 estratégias para apoiar a criança autista na volta às aulas

A adaptação escolar no autismo precisa ser construída por meio de uma lente interoceptiva e empática, focada em atender as necessidades do corpo da criança. Estruturar esse momento de forma segura envolve seis estratégias principais:

  1. Construir previsibilidade.
  2. Fazer uma aproximação gradual.
  3. Ajustar a rotina de sono e alimentação.
  4. Incentivar a percepção interoceptiva.
  5. Mapear e organizar os recursos regulatórios.
  6. Praticar a corregulação.

Entenda mais sobre esses pilares nos próximos tópicos.

1. Construir previsibilidade

Menina feliz por ter chego o dia das volta às aulas. Ela sorri para a fotografia.

Como aponta a National Autistic Society (NAS) do Reino Unido, o mundo pode parecer um lugar muito imprevisível e confuso para pessoas autistas, o que, com frequência, gera níveis elevados de ansiedade.

A necessidade de uma rotina estruturada, portanto, é um mecanismo de sobrevivência que o corpo dessa pessoa encontra para manter o sistema nervoso seguro.

Comece a transição para a volta às aulas garantindo previsibilidade para a criança. Para isso, você pode criar:

  • histórias narrativas;
  • quadros visuais;
  • calendários, com datas e horários claros das aulas, assim como da nova rotina em casa e nas terapias.

Essas estratégias ajudam a mostrar para a criança com antecedência como serão as novas dinâmicas.

Apresente também as fotos do ambiente escolar e mostre quem serão os professores.

Se for uma volta às aulas após as férias de julho, explique se os professores serão os mesmos que ela já conhece ou se haverá novos educadores.

Deixe muito claro, visualmente, o que é esperado da criança naquele ambiente, pois isso ajuda o cérebro dela a criar uma ponte segura entre o conhecido e o novo.

2. Fazer uma aproximação gradual

Seja para uma escola nova ou para a mesma instituição, visitar o espaço antes da volta às aulas faz toda a diferença.

Se a criança já estuda em tal escola, converse com a coordenação para saber se houve alguma mudança significativa durante as férias, como:

  • uma reforma na sala de aula;
  • a pintura do pátio; ou
  • a troca de brinquedos do parquinho.

Leve a criança para visitar a escola antes da volta às aulas em um horário alternativo, mais vazio. Assim, ela pode fazer o mapeamento sensorial completo do ambiente no seu próprio tempo, sem o risco imediato de desorganização emocional.

3. Ajustar a rotina de sono e alimentação

O organismo de todo ser humano precisa de tempo para se reprogramar em uma mudança de rotina. Alguns dias antes da volta às aulas, comece a reajustar de forma gradativa os horários da criança dormir, acordar e fazer as refeições.

Regular os horários fisiológicos do corpo com antecedência poupa energia do sistema nervoso, reduzindo o cansaço e a sobrecarga nos primeiros dias letivos.

4. Incentivar a percepção interoceptiva (leitura corporal)

A interocepção é a habilidade de perceber os sinais internos do próprio corpo mediante diferentes cenários, como:

  • a barriga doendo de fome;
  • a vontade de ir ao banheiro;
  • o rosto ficando vermelho de vergonha;
  • a respiração ofegante ao se cansar;
  • as “borboletas no estômago” de ansiedade; ou
  • a tensão muscular típica do estresse.

Para muitas crianças autistas, essa percepção dos estímulos internos pode ser alterada, o que dificulta o reconhecimento de que estão caminhando para a desorganização.

O papel do adulto aqui é essencial. Em casa, faça o movimento contínuo de ajudar a criança a notar e nomear o que ela está sentindo.

Valide suas sensações físicas narrando o que você observa, por exemplo: “estou vendo que suas mãos estão apertadas, parece que seu corpo está tenso após essa mudança de horário”.

Quando o adulto ajuda a dar significado às sensações, a criança ganha repertório para comunicar aos professores e colegas quando algo não vai bem na sala de aula, antes de chegar à sobrecarga.

5. Mapear e organizar os recursos regulatórios

Amigos felizes e abraçados no dia da volta às aulas

Envolva a criança na preparação da mochila se possível, garantindo que ela tenha poder de decisão sobre os itens que dão suporte à sua regulação emocional.

Fones abafadores de ruído, mordedores, texturas relaxantes ou até mesmo um pequeno objeto de apego são fundamentais para transições seguras. Eles funcionam como um kit de autorregulação que a criança poderá acessar caso sinta o corpo começar a se desorganizar.

6. Praticar a corregulação

Aqui na Genial Care partimos do princípio de que um corpo corregula outro corpo.

Lembre-se de que o estado corporal do adulto influencia diretamente o corpo da criança. Em casos de insegurança ou ansiedade no portão da escola, a criança poderá captar esses sinais no ambiente e se desorganizar.

Manter a calma, ter uma respiração tranquila e transmitir segurança na hora da despedida ajuda a criança a se sentir confiante.

Seu corpo regulado é o modelo que o sistema nervoso dela usará para se ancorar naquele momento.

A importância do diálogo e da parceria com a escola

A comunicação constante e transparente entre a família e a equipe pedagógica é o que garante a construção de uma rede de apoio eficaz. Na volta às aulas, compartilhe informações construtivas e práticas sobre o perfil da criança, especialmente:

  • o nível de autonomia dela;
  • o repertório e as ferramentas que ela já possui para se autorregular.

Se for preciso, redija um material focado nas potencialidades e nos desafios da criança, como:

  • sua forma de comunicação;
  • habilidades recém-adquiridas;
  • temas de interesse;
  • gatilhos sensoriais.

Dessa forma, professores e colegas de sala podem auxiliá-la a retornar à homeostase em caso de desorganização, onde ela estará segura e disponível para aprender.

Existem ferramentas que podem tornar essa comunicação com a escola mais clara e assertiva. Leia mais em: 6 passos para fazer o relatório descritivo da criança autista para o ambiente escolar.

O descanso também é desenvolvimento

Outra visão que sempre passamos na Genial Care é que o descanso também faz parte do desenvolvimento da criança autista.

Muitas famílias acreditam que precisam preencher todos os horários do contra-turno escolar com terapias e atividades extracurriculares.

No entanto, a escola, por si só, exige uma carga de energia física, sensorial, social e cognitiva muito alta dessa criança. Após esse grande esforço, ela precisará de tempo de descanso para conseguir processar tudo o que viveu.

Um sistema nervoso exausto entra rapidamente em estado de alerta, e um corpo lutando para sobreviver não consegue assimilar novas habilidades.

Por isso, garantir momentos de ócio, brincadeiras livres ou apenas um tempo silencioso permite que a criança recarregue suas energias após ser exposta aos inúmeros estímulos do colégio.

Também falamos sobre a necessidade do descanso neste artigo: Descanso também é desenvolvimento: como ensinar habilidades sem sobrecarregar a criança autista.

Conclusão

Atravessar o momento de volta às aulas exige planejamento, empatia e observação interoceptiva das reações da criança autista.

Quando as famílias e as escolas trabalham em conjunto para construir um ambiente pautado na previsibilidade e na escuta das necessidades da criança, a adaptação escolar se transforma em um processo mais leve, seguro e respeitoso para todos.

Nós acreditamos que, com as ferramentas certas, é possível criar um caminho confortável para lidar com a imprevisibilidade da volta às aulas e do dia a dia.

Quer entender mais sobre como funcionam as intervenções na Genial Care? Conheça nosso modelo clínico de práticas baseadas em evidências científicas e como apoiamos a jornada da sua criança rumo à autonomia:

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