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Menina dormindo. Ela tem autismo e sono

Autismo e sono: qual a relação?

O distúrbio do sono pode aparecer ainda na fase da primeira infância em crianças típicas e atípicas, mas em crianças com TEA o risco é ainda mais elevado, principalmente quando o autismo acompanha alguma comorbidade, como, por exemplo, a deficiência intelectual, cujo dos impactos está ligado diretamente ao sistema nervoso.

Entender e buscar ajuda em relação aos impactos do autismo e sono ainda na infância, é essencial, pois podem agravar os sinais associados a:

  • Desatenção;
  • Irritabilidade;
  • Hiperresponsividade sensorial;
  • Comorbidades como: problemas gastrointestinais e epilepsia.

Para te ajudar, separamos alguns cuidados para criar um ambiente mais favorável ao sono. Com base nessas recomendações, é importante que você pense quais mudanças são possíveis para construir uma rotina de sono saudável para sua filha(o).

Qual a relação entre autismo e os problemas no sono?

Conforme o Instituto do Sono, distúrbios do sono em pessoas com autismo podem estar relacionados a desequilíbrios no ritmo cardíaco. O ritmo cardíaco, por sua vez, é o principal regulador das mudanças fisiológicas diárias no corpo humano, funcionando como um “relógio biológico” que envia sinais ao cérebro sobre a hora adequada para dormir e descansar.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça que os distúrbios do sono no TEA são multifatoriais e exigem avaliação clínica individualizada — pois as causas variam de criança para criança e podem envolver desde fatores biológicos até o perfil sensorial e comorbidades associadas.

Em pessoas no espectro, esse relógio interno costuma estar dessincronizado, e a produção do hormônio do sono, a melatonina, é uma das principais razões para isso.

A biologia do sono: a relação entre autismo e melatonina

O sono é regulado, entre outros fatores, pela melatonina, um hormônio produzido naturalmente pela glândula pineal durante a noite. Em crianças com TEA, esse processo costuma apresentar alterações importantes que a ciência vem investigando cada vez mais a fundo.

Pesquisas apontam que uma parcela significativa de crianças autistas têm níveis reduzidos de melatonina no organismo. Uma das explicações está em variações no gene ASMT, responsável por codificar a última enzima da cadeia de síntese da melatonina. Estudos genéticos mostram que mutações nesse gene são mais frequentes em pessoas com TEA e estão diretamente associadas à menor produção do hormônio.

Com menos melatonina disponível, o sinal enviado ao cérebro para iniciar o processo de relaxamento chega mais fraco ou mais tarde do que o esperado. Isso resulta em dificuldades para adormecer, sono fragmentado e despertar precoce, padrões muito comuns em crianças no espectro.

Além disso, o ritmo circadiano costuma estar dessincroniado em pessoas autistas. Uma revisão sistemática aponta que avanços e atrasos no ritmo de melatonina são os distúrbios do sono mais frequentemente observados no TEA.

A ciência também avançou no campo do tratamento. Umametanálise publicada em 2022 analisou o uso terapêutico de melatonina em pessoas com TEA e encontrou melhoras significativas: em média, o tempo para adormecer diminuiu cerca de 66 minutos e a duração total do sono aumentou aproximadamente 73 minutos.

Vale reforçar: toda suplementação deve ser feita com acompanhamento médico, nunca introduzida por conta própria, mesmo que a substância seja natural.

O impacto do perfil sensorial na hora de dormir

O perfil sensorial é a forma como cada pessoa processa as informações captadas pelos sentidos: toque, som, luz, cheiro, movimento. Em crianças com TEA, esse processamento frequentemente se diferencia do esperado, podendo gerar hiper ou hipossensibilidade a diferentes estímulos.

Esse fator tem impacto direto na qualidade do sono. Uma pesquisa publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders mostrou que distúrbios do sono em crianças autistas estão associados a sensibilidades sensoriais específicas e que quanto mais intensa a resposta sensorial, maiores as dificuldades para dormir.

Entender o perfil sensorial da sua criança é, portanto, um passo fundamental para construir um ambiente favorável ao descanso.

Hipersensibilidade tátil

A hipersensibilidade ao toque, também chamada de defensividade tátil, é uma das formas de processamento sensorial mais associadas a problemas de sono no TEA. Um estudo publicado em 2021 na revista Frontiers in Integrative Neuroscience, apontou que a hipersensibilidade tátil foi a variável sensorial que mais fortemente se relacionou com distúrbios do sono em crianças autistas, explicando sozinha 24% da variação total nos índices de distúrbio do sono.

Na prática, isso significa que texturas que passariam despercebidas pela maioria das pessoas, como a costura de um pijama, a etiqueta de uma roupa ou a trama de um lençol, podem ser sentidas como incômodas por crianças com hipersensibilidade tátil, dificultando o relaxamento necessário para adormecer.

Algumas estratégias que podem ajudar:

  • Roupas de dormir sem costuras ou etiquetas: hoje existem pijamas desenvolvidos especialmente para crianças com sensibilidade tátil, feitos de tecidos macios e sem acabamentos que causem atrito.
  • Lençóis e cobertores adaptados: tecidos de algodão penteado ou microfibra costumam ser melhor tolerados. Cobertores com peso (weighted blankets) também podem ter efeito calmante para algumas crianças, sempre com orientação terapêutica.
  • Envolver a criança na escolha: se a criança já consegue comunicar suas preferências, escolher juntos o pijama e a roupa de cama pode fazer uma grande diferença na aceitação e no conforto.

Cada criança é única. O que funciona para uma pode não funcionar para outra — por isso, conversar com o terapeuta que acompanha sua família pode ajudar a identificar estratégias personalizadas para o perfil sensorial específico da sua criança.

Comorbidades: quando a falta de sono exige investigação médica?

Em alguns casos, as dificuldades de sono no TEA estão associadas a condições médicas que precisam ser investigadas e tratadas por uma equipe clínica. Conhecer essas condições ajuda as famílias a identificar sinais de alerta e a buscar suporte no momento certo.

Epilepsia

A epilepsia é uma das comorbidades mais frequentes no TEA, presente em até um terço das crianças autistas. A relação entre epilepsia e sono é bidirecional: crises epilépticas podem ocorrer durante o sono ou ser desencadeadas pela privação de sono, e a má qualidade do sono pode, por sua vez, aumentar a frequência das crises.

Um estudo recente destacou que distúrbios do sono em crianças com TEA e epilepsia prejudicam estruturas neurobiológicas relacionadas à memória, à atenção e ao comportamento.

Se a criança apresentar movimentos incomuns durante o sono, engasgos noturnos recorrentes ou episódios de despertar brusco com confusão, é importante buscar avaliação neurológica.

Problemas gastrointestinais

Distúrbios gastrointestinais afetam entre 46% e 84% das crianças com TEA. Constipação crônica, refluxo e dores abdominais podem gerar desconforto físico noturno que dificulta adormecer ou mantém a criança acordada. Nesses casos, o tratamento do problema gastrointestinal tem impacto direto na qualidade do sono.

Ansiedade e TDAH

Condições como ansiedade e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são comuns em crianças com TEA e também contribuem para o sono fragmentado. A ansiedade antecipatória, a dificuldade de “desligar” pensamentos na hora de dormir, é frequentemente relatada pelas famílias.

Por que é importante se preocupar com a relação entre autismo e sono?

Assim como dissemos na introdução deste texto, a falta de sono pode ser prejudicial para o bem-estar de pessoas autistas, bem como afetar a rotina saudável de suas pessoas cuidadoras.

O momento do sono é um período inteiramente dedicado para descanso, a falta dessa atividade de “revitalização” do corpo e da mente pode interferir em atividades da rotina diária, deixando a pessoa com autismo indisposta e desestimulada para desenvolver as ações.

Até mesmo o processo de alfabetização pode ser prejudicial, pois noites mal dormidas resultam em uma piora na atenção, além da falta de receptividade para receber estímulos, devido ao cansaço físico.

Como melhorar o sono no autismo?

É importante lembrar que existem profissionais especializados para auxiliar a família a entender e ajudar nesse processo de distúrbio do sono. Consulte seu pediatra para garantir que passos saudáveis estão sendo seguidos e que acolhem a criança.

Além disso, cada pessoa possui um perfil sensorial, com uma percepção singular do mundo ao redor, sendo preciso entender a forma que a pessoa recepciona os estímulos e como eles vão impulsionar no desenvolvimento e até na rotina de sono.

Um exemplo disso é: pessoas com TEA podem preferir atividades que estimulam o corpo e gastam energia. Isso pode resultar em um sono mais tranquilo ou na necessidade de um banho quente para relaxar.

Existem outros estímulos, listamos abaixo algumas dicas:

1. Cuidados gerais para crianças com autismo dormir melhor

O quarto da criança deve ser propício ao sono. Isso quer dizer um ambiente quieto, com uma temperatura agradável e pouca luz. Eletrônicos como TV, iPad ou videogame não devem estar ligados durante o período de dormir.

2. Lidando com barulhos e ruídos

Barulhos domésticos comuns, como a TV ligada ou a água corrente no banheiro podem afetar o sono de uma criança diagnosticada com TEA, devido à hipersensibilidade sensorial.

Caso não seja possível evitar esses barulhos, uma sugestão é criar sons mais confortáveis para chamar a atenção da criança, e assim fazer com que ela não se incomode com o barulho original.

Normalmente esse novo som é chamado de ruído branco. Pode ser o som de um ventilador de teto, de um purificador de ar ou mesmo o som de um instrumento tocado no seu celular.

3. Incômodos com a textura do lençol ou pijama

Muitas crianças podem apresentar desconforto com a textura da roupa de cama ou do pijama. É importante escolher um pijama confortável e com poucas estampas. Caso sua filha(o) já seja maior, escolha junto com ela(e) o pijama e o lençol mais confortável.

4. Alimentação antes de dormir

Antes de dormir, evite alimentos e bebidas muito calóricas ou com cafeína. Refrigerantes ou doces muito gordurosos podem despertar a criança e dificultar a rotina do sono.

5. Atividade tranquilas antes de dormir

É importante que a criança não faça atividades muito intensas antes de dormir. Brincadeiras muito agitadas ou que demandem muito exercício físico devem ser evitadas, assim como brincar com celular, tablet, televisão ou videogame. O ideal é evitar essas atividades no mínimo 30 minutos antes da hora de dormir.

6. Impacto de medicamentos

Alguns medicamentos podem interferir no sono da criança. Se seu filho estiver tomando algum remédio, recomendamos que você consulte o médico sobre possíveis efeitos colaterais.

Muitas vezes, mudar a hora de tomar o remédio já pode ajudar. Em relação a medicamentos para dormir, só devem ser utilizados se recomendados pelo médico.

Caso a dificuldade de dormir permaneça, é importante envolver uma equipe clínica para te ajudar.

Conclusão

Como vimos, autismo e sono a relação entre autismo e sono é complexa e multifacetada, afetando significativamente o bem-estar de pessoas no espectro e seus cuidadores. As causas para os distúrbios do sono podem ser variadas, desde desequilíbrios no ritmo circadiano e produção de melatonina até fatores sensoriais e comorbidades.

Aqui na Genial Care contamos com uma rede de cuidado de saúde atípica referência na América Latina, que oferece intervenção nas áreas de Terapia Ocupacional, Terapia ABA e Fonoaudiologia de qualidade para crianças com TEA, além de orientação parental para as pessoas cuidadoras.

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Terapeuta em clínica de autismo. Ela está com menina autista.

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