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Gestante com dúvidas sobre tomar medicamento paracetamol na gestação.

Paracetamol na gestação e autismo: o que a ciência realmente sabe?

Esse conteúdo passou por revisão clínica de Grazi, Conselheira clínica da Genial Care | CRP 06124238


 

Recentemente, alguns estudos científicos têm levantado hipóteses sobre a possível relação entre o uso de paracetamol (acetaminofeno) durante a gravidez e o risco aumentado de condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Isso gerou dúvidas e preocupações em muitas famílias. Mas o que essas pesquisas realmente indicam?

Neste artigo, vamos te ajudar a entender o que a ciência já sabe, quais são os limites desses estudos e como tomar decisões informadas, sem medo ou culpa.

O que dizem os estudos sobre paracetamol e neurodesenvolvimento?

Alguns estudos observacionais sugerem uma possível associação entre o uso de paracetamol na gravidez e alterações no desenvolvimento infantil. No entanto, é essencial interpretar esses achados com cuidado, já que associação não é sinônimo de causalidade.

Um exemplo é o estudo de Ji et al. (2020), publicado no JAMA Psychiatry, que analisou biomarcadores de paracetamol no sangue do cordão umbilical. Os autores encontraram níveis mais altos da substância em crianças diagnosticadas com TEA ou TDAH. Apesar disso, o próprio estudo reconhece limitações importantes, como o fato de ser retrospectivo e não conseguir isolar completamente outros fatores que também influenciam o desenvolvimento infantil.

Outro estudo bastante citado é o de Liew et al. (2019), que propôs um método para tentar entender se o momento do uso do paracetamol teria relação com possíveis efeitos no neurodesenvolvimento. Para isso, os pesquisadores dividiram as gestantes em três grupos: aquelas que usaram o medicamento antes da gravidez, durante a gravidez e depois do parto.

A lógica era: se o paracetamol tiver de fato algum efeito direto sobre o cérebro em formação do bebê, esse efeito deveria aparecer somente no grupo que usou o medicamento durante a gestação, e não nos outros.

O estudo encontrou uma associação apenas nesse grupo (gestantes que usaram paracetamol durante a gravidez). No entanto, é importante destacar que essa associação não prova que o medicamento foi a causa direta de qualquer diagnóstico posterior. Pode ser, por exemplo, que o uso do paracetamol esteja relacionado a outras condições da gestante (como infecções, febre ou dor intensa) que também podem impactar o desenvolvimento do bebê.

Além disso, o estudo usou dados autorrelatados e avaliações indiretas do desenvolvimento das crianças, o que limita a precisão dos resultados. Assim, não é possível concluir que o uso de paracetamol durante a gravidez causa autismo ou TDAH.

Já o estudo mais recente, de Baker et al. (2024), publicado no JAMA, se destaca por sua alta robustez metodológica e ampla escala populacional. A pesquisa analisou mais de 2,48 milhões de crianças nascidas na Suécia entre 1995 e 2019, com acompanhamento até 2021. Utilizando métodos avançados, como análises com controle entre irmãos, os autores investigaram a possível relação entre o uso de paracetamol durante a gestação e diagnósticos de TEA, TDAH e deficiência intelectual. O resultado foi claro: não foram encontradas evidências de associação causal. Os pesquisadores destacam que os achados de estudos anteriores podem estar relacionados a fatores familiares e genéticos não controlados, e reforçam que, até o momento, não há base científica para alterar as recomendações clínicas atuais sobre o uso do medicamento.

O que significa “associação”, e por que isso não é o mesmo que “causar”?

Uma associação significa que duas coisas aparecem com mais frequência do que o acaso explicaria, mas isso não quer dizer que uma causa a outra.

Imagine que, toda vez que as pessoas usam guarda-chuva, o número de acidentes de trânsito aumenta. Isso é uma associação: os dois eventos acontecem ao mesmo tempo. Mas isso não significa que usar guarda-chuva cause acidentes.

Na verdade, o que pode estar por trás dessa associação é um terceiro fator: a chuva. Quando chove, as pessoas usam guarda-chuva e as ruas ficam mais escorregadias, com menor visibilidade, o que pode aumentar os acidentes.

Ou seja: há uma associação entre guarda-chuvas e acidentes, mas a causa pode ser a chuva, não o guarda-chuva.

Com o paracetamol e o autismo, algo semelhante pode estar acontecendo: os estudos observam que ambas as coisas aparecem com mais frequência, mas isso não significa que uma causa a outra. Pode haver outros fatores envolvidos, como infecções, dor intensa ou condições de saúde da gestante, que ainda não foram totalmente compreendidos.

Então, grávidas devem evitar o paracetamol?

A decisão sobre o uso de qualquer medicamento durante a gestação, inclusive o paracetamol, deve sempre ser tomada com orientação profissional individualizada.

Embora o paracetamol continue sendo amplamente utilizado por gestantes e seja geralmente considerado seguro, não há consenso absoluto sobre seus efeitos no neurodesenvolvimento fetal. Por isso, recomenda-se que ele seja usado somente quando necessário, na menor dose possível e pelo menor tempo, sempre com acompanhamento médico.

O mais importante é que cada situação seja avaliada com base nas necessidades da gestante e nas orientações da equipe de saúde, considerando os riscos e benefícios específicos de cada caso.

Uma leitura crítica é essencial… mesmo com artigos científicos!

Estudos científicos são ferramentas valiosas, mas precisam ser analisados com cuidado. Isso vale inclusive para pesquisas publicadas em revistas renomadas. Nem todo achado é definitivo, e muitos estudos iniciais levantam hipóteses que serão testadas, aprofundadas ou até mesmo refutadas no futuro.

Por isso, é importante que mães, pais e cuidadores tenham acesso à informação de qualidade e contextualizada, e que não tomem decisões com base em manchetes ou interpretações apressadas. A leitura crítica, com apoio de profissionais qualificados, é o melhor caminho para o cuidado responsável.

Informação confiável e acolhimento: a base de qualquer decisão

Na Genial Care, acreditamos que a boa informação empodera famílias. É natural sentir dúvidas diante de tantas notícias e estudos, mas decisões sobre saúde devem sempre ser tomadas com calma, ciência e apoio especializado.

É importante lembrar que esses estudos não provam uma causa para o autismo. Pelo contrário: reforçam o quanto ainda precisamos de mais pesquisas rigorosas e replicáveis para compreender, com mais clareza, os múltiplos fatores que envolvem o desenvolvimento infantil.

O autismo é resultado de uma combinação complexa de fatores genéticos, ambientais e biológicos, e nenhuma explicação isolada dá conta dessa diversidade.

A ciência não avança em respostas prontas, mas sim em questionamentos bem formulados, estudos bem desenhados e revisões constantes. E nós, como sociedade, precisamos acompanhar esse processo com discernimento, responsabilidade e abertura ao conhecimento.

Se você quer saber mais sobre o desenvolvimento infantil ou precisa de suporte, estamos aqui para caminhar com você com empatia, responsabilidade e ciência.

Referências dos artigos citados no texto

Ji, Y., Azuine, R. E., Zhang, Y., Hou, L., Hong, X., Wang, G., … & Wang, X. (2020). Association of Cord Plasma Biomarkers of In Utero Acetaminophen Exposure With Risk of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Autism Spectrum Disorder in Childhood. JAMA Psychiatry, 77(2), 180–189. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2019.3259

 

Liew, Z., Ritz, B., Virk, J., & Olsen, J. (2019). Use of Negative Control Exposure Analysis to Evaluate Confounding: An Example of Acetaminophen Exposure and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Observational Data. Epidemiology, 30(4), 573–579. https://doi.org/10.1097/EDE.0000000000001026

 

Baker, D., Weng, Y., Meyer, R. E., Edwards, T. M., Engel, S. M., Yeung, E. H., … & Umbach, D. M. (2024). Acetaminophen Use During Pregnancy and Children’s Risk of Autism Spectrum Disorder and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder. JAMA, 331(5), 374–383. https://doi.org/10.1001/jama.2023.26860

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4 respostas para “Paracetamol na gestação e autismo: o que a ciência realmente sabe?”

  1. Parabéns pelo material esclarecedor, isento e sem paixões políticas. Raro de se ver hoje em dia. É isso que se espera da ciência responsável.

    • Olá, Miriã. Como vai? Esperamos que muito bem.

      Agradecemos pelo seu comentário. Por aqui, primamos com evidências científicas. Fizemos o texto para auxiliar no esclarecimento dessa informação que, infelizmente, surgiu e certamente deixaria pessoas com dúvidas sobre.

      Esperamos que ele tenha te ajudado a compreender mais sobre.

      Abraços.

  2. Parabéns Doutora Grazielle pelo seu posicionamento, sempre em busca de uma sociedade justa!

    Não podemos acreditar em um político que não se importa com as minorias, devemos acreditar em especialista no assunto

    • Olá, Denise. Como vai? Esperamos que muito bem.

      Olha, passamos seu feedback para a Grazi e ela ficou super feliz em saber que você está aqui conosco, apoiando nosso posicionamento. Isso é muito importante para mantermos a sociedade com informações verdadeiras, com evidências científicas e com foco na informação.

      Sinta-se abraçada por ela e por nós também!

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