Entrevista com Polyana Sá – racismo e o dia da consciência negra
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“Que sejamos todos antirracistas e permitamos que as pessoas pretas reverberem seus discursos em seus lugares de fala, juntamente com todos os seus demais atravessamentos”, é assim que Polyana Sá define a luta pelo racismo no Brasil. Diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo quando tinha entre 15 e 16 anos, foi nesta mesma época que ela também afirma ter se descoberto uma mulher preta.

Nossa líder de comunidade, Gabriela Bandeira, entrevistou Polyana sobre preconceito, reflexões e inspirações no Dia da Consciência Negra. Confira a entrevista abaixo:

Gabriela: com qual idade você se descobriu como uma mulher preta?

Polyana: acredito que desde muito pequena eu já sentia o atravessamento social por ser preta, mas só fui me conhecer e reconhecer como mulher preta mesmo aos 15 anos (logo após o meu BC) – BC é uma abreviação para “big chop’ ou “grande corte”. É quando uma mulher que faz química no cabelo (alisamentos, progressiva, etc) deixa de fazer e corta o cabelo bem curtinho, pra a partir disso crescer o cabelo natural.

Você já sofreu ou ainda sofre algum tipo de preconceito?

Já sim. No Brasil, é praticamente impossível encontrar uma pessoa preta que nunca tenha sofrido racismo. Lembro que meus primeiros contatos com o preconceito racial foram na escola mesmo. Outras crianças me chamando de macaca, escrava, “cabelinho de cu”, entre outras coisas mais pesadas que prefiro nem mencionar.

Você acha que sofre mais preconceito por ser autista ou por ser negra?

Um atravessamento influi no outro, mas ao fim eu sinto que o fato de eu ser uma mulher preta é o que mais pesa no olhar social construído pelas outras pessoas.

Dentro do movimento autista também sinto que muita da visibilidade dos autistas pretos é ofuscada e inúmeras demandas são simplesmente ignoradas. Ser preto e estar dentro de um movimento social também é sinônimo de, em certo modo, enfrentar a “visibilidade seletiva”.
Como você busca conscientizar as pessoas sobre racismo no seu contexto familiar e entre amigos?

Sempre procuro indicar livros, vídeos e músicas que visem o empoderamento.

Pessoas como Angela Davis, Sueli Carneiro, Silvio de Almeida, Djamila Ribeiro, Emicida, entre outros, são nomes de peso e que auxiliam demais no processo de auto emancipação dos meus familiares e amigos.

É um trabalho de “formiguinha”, mas fazemos o nosso melhor para que essas pessoas se libertem das mazelas que o racismo impõe.

Qual forma de racismo você acha que está mais enraizada na sociedade até hoje?

Com certeza o racismo estrutural. Ele está enraizado em todo sistema brasileiro, na cultura, nas expressões rotineiras, na mídia, secretamente institucionalizado. É o racismo que não é tão “explícito” e por conta disso domina mais e mais lugares.

Como você acha que a sociedade pode se conscientizar e se tornar menos racista?

Acredito que o primeiro de tudo é que as pessoas que possuam algum privilégio (como, por exemplo, ser branco, neurotípico, hétero, etc) reconheçam os seus respectivos privilégios, e permitam que pessoas que não têm tanto acesso aos lugares de fala que o privilégio fornece sejam, de certa forma, ouvidas e tenham suas demandas reconhecidas. Então escutem as pessoas pretas, prestem atenção no que nós temos a falar, enxerguem nossas narrativas e ajudem a reconhecer a necessidade da nossa causa.

Quem mais te inspira na luta pelo racismo?

Atualmente, a pessoa que mais me inspira na luta antirracista é a Prof. Dra. Djamila Ribeiro. Toda literatura dela é de extrema importância pra mim e a luta que ela prega dentro do movimento negro é imprescindível e essencial. Todos deveriam conhecê-la!


20 de novembro foi escolhido como Dia da Consciência Negra por ser o dia da morte de Zumbi – líder do Quilombo dos Palmares. A data é uma lembrança da luta dos negros contra a opressão no Brasil, mas obviamente não devemos nos conscientizar e refletir sobre racismo somente hoje, mas a todo momento.

Para continuar aprendendo, acesse nosso Instagram @genialcare e veja dicas de livros selecionados pela Polyana para aprender sobre racismo. Você também pode segui-la no Instagram @heyautista.

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