Fábio e o diagnóstico
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Muitas pessoas passam boa parte da vida se sentindo diferentes sem saber que todas essas peculiaridades têm um nome: autismo. Acostumada com estereótipos reforçados pela mídia, como o personagem Rain Man, a a maioria deles têm uma visão distorcida do espectro e, por isso, tende a ter um diagnóstico tardio, já na fase adulta. 

Embora pareça assustadora num primeiro momento, essa descoberta é libertadora e traz novas perspectivas que vão além da compreensão individual e podem ajudar em outros processos. Esse é o tema da nova série de reportagens escritas pela jornalista Gabriela Bandeira, do Olhares do Autismo, para a Genial Care. Leia abaixo a história de Fábio Sousa. 

“Será que você não é autista, não?”. Foi assim que a esposa do bonequeiro Fábio Sousa demonstrou as suspeitas de que o marido, que tinha 35 anos na época, pudesse fazer parte do espectro do autismo. O dia era 2 de abril de 2018, e foi na data em que se celebra o Dia Mundial da Conscientização do Autismo que a organizadora de eventos ficou chocada ao ver em uma reportagem da TV que muitos comportamentos dele tinham relação com o diagnóstico. 

Ao voltar a esta lembrança, Fábio se recorda do sentimento inicial ao ouvir as suspeitas. 

– No começo, fiquei um pouco bravo, até porque eu só tinha aquele estereótipo do Rain Man – diz referindo-se ao personagem vivido por Dustin Hoffman em 1980 – mas, com o passar do tempo, comecei a ler um pouco mais,, ver canais de médicos e descobrir canais de outros autistas e comecei a perceber que autista não era só aquilo que eu imaginava. 

O processo para aceitar as suspeitas da esposa levou cerca de cinco meses. Assim, o próximo passo que Fábio deu foi no sentido de encontrar um profissional que pudesse, de fato, diagnosticá-lo. O que não imaginava era que esse processo demoraria tanto tempo. 

Foi a universidades, tentou consultas individuais – que custavam um valor extremamente alto – e até encarou a fila de espera do Sistema Único de Saúde (SUS). Entre todas as dificuldades enfrentadas no processo, Fábio ressalta um: a falta de conhecimento dos profissionais sobre autismo.

– Diziam de cara que eu não era autista porque me comunico muito bem. Achavam que eu queria chamar atenção e chegaram a me encaminhar para um psiquiatra com suspeita de ser histriônico – aqui, ele se refere ao Transtorno de Personalidade Histriônica, caracterizada por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar atenção para si mesmo.

Fase 1: assumindo o autodiagnóstico 

Diante dos empecilhos, Fábio decidiu assumir o autodiagnóstico e começar a falar abertamente sobre o autismo na vida real e nas redes sociais. 

Suas postagens fizeram sucesso e alcançaram um público cada vez maior. Foi por meio delas, também, que Fábio foi convidado a palestrar em um evento sobre autismo em 2019. Ainda sem ter a confirmação médica de que pertencia ao TEA, foi sincero:

– Eu disse que ainda não tinha um diagnóstico e ela me disse que tudo bem. 

Foi essa mesma profissional que, mais tarde, viria a concluir o parecer que o classificava como autista leve. 

– Eu nunca me senti tão bem na minha vida. Tudo aquilo que eu não sabia, como porque eu era diferente e as coisas que fazia que eram diferentes agora têm resposta – afirma.

Ele ainda afirma que agora compreende mais a si mesmo e seus limites. Além disso, saber que era autista ajudou até mesmo em seu casamento, uma vez que a esposa agora tem mais informações sobre como a mente dele funciona e pode ser mais objetiva nas palavras, por exemplo. 

“Se eu falar, não sai direito”

Os posts em seu perfil nas redes sociais fizeram tanto sucesso que um de seus amigos deu a ideia dele criar uma página só voltada para o tema. Assim nasceu a ‘Se eu falar, não sai direito’. 

– Comecei a pensar em um nome para página, e como tenho muita dificuldade em me expressar verbalmente, achei que seria legal colocar esse nome. 

Abordando o autismo de modo geral, a maioria dos textos escritos por Fábio falam sobre o diagnóstico tardio de uma forma mais simples e objetiva, para que todos possam entender.

– Crio meus textos na intenção de explicar de forma mais clara algum conceito mais abstrato e complexo. Nós, autistas, temos muitas dificuldades de falar as coisas que acontecem aqui dentro, mas quando comecei a estudar mais sobre o assunto, minha cabeça começou a produzir imagens e tive que por isso para fora – conclui. 

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Conheça a voz de Kmylla

Kmylla só recebeu o diagnóstico de autismo aos 27 anos. Agora, compartilha com outras pessoas seu modo diferente de pensar e agir, além de conscientizar sobre o tema.