“Temos nossas individualidades, habilidades e necessidades diferentes”: conheça a voz de Kmylla

Muitas pessoas passam boa parte da vida se sentindo diferentes sem saber que todas essas peculiaridades têm um nome: autismo. Acostumada com estereótipos reforçados pela mídia, como o personagem Rain Man, a maioria deles têm uma visão distorcida do espectro e, por isso, tende a ter um diagnóstico tardio, já na fase adulta. 

Embora pareça assustadora num primeiro momento, essa descoberta é libertadora e traz novas perspectivas que vão além da compreensão individual e podem ajudar em outros processos. Esse é o tema da nova série de reportagens escritas pela jornalista Gabriela Bandeira, do Olhares do Autismo, para a Genial Care. Leia abaixo a história de Kmylla Borges.

imagem cedida pela entrevistada

Me lembro de ter ido a psicólogos durante a infância. Disseram que eu era muito tímida, e só. Na adolescência eu procurei por psicoterapia por conta própria, principalmente devido as minhas dificuldades de interação social. Não conseguia entender porque para a maioria das pessoas que eu conhecia parecia algo fácil, e porque era extremamente difícil pra mim. Nesse momento, eles sugeriram TDAH, depressão, ansiedade, fobia social. Para mim isso não fazia sentido.

Essa é a principal recordação da jovem Kmylla Borges sobre as tentativas fracassadas de encontrar uma resposta para seu modo diferente de agir e de sua mente funcionar. Mesmo sem imaginar que aquilo tudo poderia acontecer em razão do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), ela lembra que nunca concordou com as definições de especialistas, mas também não conseguia imaginar o que pudesse torná-la tão diferente das outras pessoas. 

A resposta definitiva veio somente aos 27 anos. Na época, Kmylla já estava na faculdade de psicologia, e seu estágio envolvia lidar com pessoas no TEA. Até então, ela diz que tinha uma visão bastante estereotipada do autismo, por isso nunca chegou a imaginar que pudesse estar no espectro. 

– Não tive uma disciplina que falasse sobre esse transtorno do neurodesenvolvimento, e o pouco que eu sabia era uma visão bem estereotipada de que pessoas autistas não falam, apresentam estereotipias bem visíveis e que não gostam de luzes e barulho. No estágio eu comecei a entender sobre o espectro, e que há diversas formas diferentes que essas características do transtorno vão se apresentar em cada pessoa. 

Foi também durante essa experiência que a então estudante de psicologia teve oportunidade de conhecer pessoas autistas e entendeu como se parecia com elas.

– Percebi que minha infância havia sido parecida com a delas em vários aspectos, então comecei uma busca na internet sobre adultos autistas, e vi que muitos tiveram diagnóstico apenas depois de adultos. 

Enfim, o diagnóstico

Tudo isso foi um pontapé inicial para que ela decidisse buscar novamente profissionais que pudessem ajudá-la com o diagnóstico. A partir disso, marcou uma consulta com um neurologista. Lá, contou seu histórico, fez algumas avaliações e em seguida recebeu o laudo de TEA. 

– Receber o diagnóstico foi um alívio! As coisas finalmente fizeram sentido e eu comecei a conhecer e compreender mais sobre mim mesma. Compreendendo meu funcionamento, consegui me ajudar, me expressar um pouco melhor e, principalmente, me respeitar mais. Foi um processo de autoconhecimento, Com poucos meses de pesquisa sobre autismo e tendo meu diagnóstico de TEA, eu soube mais sobre mim do que todos os anos passados que eu me sentia um peixe fora d’água – afirma.

Hoje sabendo mais sobre o espectro, ela reforça que a dificuldade de compreender que poderia ser autista também vem da pouca visibilidade e veracidade das representações que a mídia faz, na qual autistas leves e Aspergers normalmente são pessoas com uma genialidade acima da média e inabilidades nas interações sociais. 

– Essa visão romantizada dos filmes acaba distorcendo muito a realidade do que é o transtorno do espectro – pontua. 

Desordem no espectro: informação e conscientização

Depois de pesquisar muito sobre autismo, Kmylla encontrou outros adultos no espectro – a maioria com diagnóstico tardio – que compartilhavam suas experiências por meio de vídeos. Foi então que decidiu criar um canal no YouTube no qual pudesse informar e promover a conscientização do autismo: o Desordem no Espectro.

– Aqui no Brasil falamos de Transtorno do Espectro Autista, é comum encontrarmos em artigos internacionais ‘’Spectrum Disorder’’ e eu me habituei com o termo em inglês. As questões sensoriais, interesses restritos, padrões repetitivos e dificuldades sociais e de comunicação, são desordenadas. Não é atoa que tudo isso junto seja caracterizado como um transtorno, as variações dessas desordens dentro de um espectro são diversas, e na minha interpretação, a tradução ‘’ilustra’’ de uma forma interessante.

A ideia de fazer vídeos contando a própria experiência também reflete a vontade de Kmylla em poder evidenciar suas singularidades e mostrar que nenhum autista é idêntico ao outros. Por isso, deixa um recado para todos os leitores da Genial Care:

– Gostaria de falar para as pessoas que estão lendo isso que, apesar de ser o mesmo transtorno, nunca vai haver um autista igual a outro. Temos nossas individualidades, habilidades e necessidades diferentes.