Dia dos Pais: a história de Eliseu

“Muitos pais deixam os filhos e a mãe depois de receber o diagnóstico de autismo”. Quem faz esta constatação é o inspetor de alunos Eliseu Acácio da Silva. Pai de um jovem de 23 anos, e padrasto de outro com 25 anos, ambos no espectro do autismo, ele enfrenta de perto a realidade do autismo severo e, diferente de muitos outros, tem motivos de sobra para se orgulhar nesse Dia dos Pais. 

Convivendo com o autismo há 20 anos, desde o diagnóstico do filho Lucas Gabriel, ele ainda se considera um estudante do tema, e conta que sempre busca aprender mais, seja com as próprias experiências, com outras famílias ou até mesmo com pessoas no espectro do autismo que conseguem se expressar por meio da fala. 

Durante todo esse tempo, Eliseu diz que sente, sim,  a diferença entre o número de mães e pais que se tornaram ativistas na luta pelos direitos dos filhos no TEA. “Não que sejam raríssimos os pais na causa do autismo e nos cuidados do autista,  mas as mães são maioria esmagadora”, pontua. 

Com o filho Lucas Gabriel (imagem cedida pelo entrevistado)

Vivendo de perto com dois autismos 

Quando Lucas Gabriel recebeu o diagnóstico de autismo, Eliseu não se assustou. Diferente do que acontece com a maioria das famílias, que não conhecem nada sobre o assunto, ele conta que já tinha ouvido falar de autismo. 

“Com o passar dos meses e anos,  fui conhecendo as dificuldades do meu filho e as dificuldades nos cuidados com ele, procurando meios para lidar com essas situações. Nunca foi fácil. Entretanto,  sou, por natureza, uma pessoa bastante serena e que não entra em desespero,  mesmo nas situações mais tensas. Essas minhas características ajudaram e ajudam muito”, conta. 

Apesar de hoje ser separado da mãe biológica de Lucas, ele diz que mantém uma boa relação com ela, que também tem alguns problemas psicológicos e faz tratamento. Ele hoje é casado com Maria, mãe de Lucas Gerson, que também está no espectro do autismo. 

Para ele, a relação com o enteado também é bastante proveitosa. No entanto, diz que o jovem sentia muito ciúmes da mãe quando ela e Eliseu começaram a namorar e constantemente a puxava para que o inspetor ficasse distante. Lembra ainda que, em uma ocasião em particular, na qual o jovem lhe deu um soco no olho enquanto o segurava para que a mãe desse banho. 

“Foi um rompante que, claro, não me deixou magoado. E também de agressividade comigo foi só essa vez. Aos poucos, os ciúmes que ele tinha da mãe comigo foi passando e ele foi me aceitando como amigo. Foi uma conquista gradativa…  Com paciência. Auxiliar ele ao se alimentar contribuiu muito para essa minha aproximação dele e sua aceitação e compreensão de que sou alguém do bem”, diz. 

Com o enteado Lucas Gerson (imagem cedida pelo entrevistado)

Hoje, afirma que Lucas Gerson considera sua presença sem reações agressivas, mesmo nos seus momentos de irritabilidade e crises. O que é, por si só, uma vitória.

Ao lado dos dois, tanto do filho quanto do enteado, ele vive uma realidade também distante da maioria das famílias: a institucionalização. Os meninos foram internados em clínicas devido às crises de agressividade. 

Lucas Gabriel esteve até novembro do ano passado internado em uma clínica em Itupeva. Ao receber alta, foi morar com os pais de Eliseu. Já Lucas Gerson segue internado em uma clínica em São Paulo, onde recebe visitas constantes do casal. 

Conscientizar sobre o autismo

Diante de toda vivência, Eliseu usa a visibilidade que tem – tanto dentro quanto fora da comunidade do autismo – para conscientizar sobre o tema. Nas conversas que tem, busca sempre introduzir o autismo. Mas é quando fala com pessoas sem envolvimento com a causa que faz isso com mais frequência. 

“Se tenho pouco tempo,  faço um resumo com os principais apanhados sobre pessoas autistas. Se o tempo é maior,  então posso ampliar e detalhar as informações. Mas sempre de forma clara e objetiva, numa linguagem mais popular para melhor compreensão. Não basta dizer que autistas são pessoas com características diferentes,  é importante e necessário explicar sobre essas diferenças”. 

Para ele, mais do que apenas explicar o conceito de autismo e desmistificar alguns pensamentos populares, a visibilidade deve ser inclusiva e abordar até mesmo as diferentes classes sociais e realidades existentes.  

“Considero que conscientizar sobre o autismo não é simplesmente e tão somente listar características das pessoas autistas,  mas também falar das diferente realidades que vivem os autistas e as famílias desses autistas.  A conscientização deve ter essa abrangência”, conclui.