Israel – autismo e deficiência visual (parte 2)

Na segunda parte da história de Marcela Parreira, a jornalista Gabriela Bandeira relata um pouco das dificuldades em lidar com dois diagnósticos totalmente opostos: autismo e deficiência visual. Leia o texto:

Praticamente toda família que recebe o diagnóstico de autismo passa por uma espécie de “luto”. Psicólogos definem esse estado como o luto do filho perfeito, idealizado. Muitas vezes, antes mesmo do nascimento da criança, os pais planejam várias coisas que acabam tendo que ser repensadas quando se recebe a notícia de que aquele indivíduo faz parte do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). 

No livro Autismo, não espere, aja logo, o jornalista Paiva Junior narra que “a descoberta de que há algo errado com seu filho é como se o chão sumisse sob seus pés momentaneamente”. Pois saber que uma criança está no espectro do autismo não é resposta, mas, sim, pergunta. Afinal, o que é autismo? Como tratar? Meu filho vai se desenvolver? 

Dessa sensação, Marcela entende muito bem. Para ela, vivenciar o luto do diagnóstico faz parte do processo. 

– Passei por luto, sim. Não era o que queria para o meu filho. 

O filho, em questão, é Israel. Ao receber o diagnóstico de TEA, quando ele completava cinco anos, ela já lidava com outra limitação: a deficiência visual do menino.

“Pensando em imagens”

A americana Temple Grandin é um dos nomes mais conhecidos na comunidade do autismo. Diagnosticada aos dois anos e cientista renomada no campo do comportamento animal, ela foi uma das primeiras pessoas dentro do espectro a conseguir explicar a forma de pensamento de autistas. 

Em seu livro Thinking in pictures e no filme Temple Grandin, de 2010, podemos entender que o pensamento dela, assim como de muitas outras pessoas na mesma condição, ocorre por meio de imagens. É o que a própria cientista chama de pensadores visuais. 

Tendo isso em mente, muitos especialistas usam desses recursos para atuar no ensino de crianças e adolescentes com TEA. Ou seja, as imagens são essenciais no processo de entender o funcionamento da rotina e até para atuar na parte da comunicação, especialmente em casos de autismo não-verbal (cerca de 25% dos casos de autismo diagnosticados). 

Receber esse tipo de informação causava ainda mais medo em Marcela. Sabendo que Israel não podia enxergar, esse tipo de recurso não poderia ser utilizado. 

– A pessoa com autismo tem no sistema visual uma janela de oportunidades para aprender. O Israel não tem. A cegueira e o autismo juntos são desafiadores. A pessoa com deficiência visual aprende através dos outros sentidos, mas o autismo do Israel trouxe uma desordem sensorial. 

Diante destes desafios, a missão agora era encontrar profissionais capacitados para atender crianças com autismo e, também, com deficiência visual. Isso porque somente sendo capaz de atuar nas duas áreas, o desenvolvimento de Israel seria satisfatório. Começava, aí, uma nova fase: a de mãe/ terapeuta. Leia na próxima semana a história de como Marcela resolveu se tornar especialista no tipo de autismo de Israel.

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Kmylla só recebeu o diagnóstico de autismo aos 27 anos. Agora, compartilha com outras pessoas seu modo diferente de pensar e agir, além de conscientizar sobre o tema.