Manual da Genial: como falamos sobre autismo
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Quem é a Genial Care?

A Genial Care é um espaço de educação para cuidadores de crianças com autismo. Existimos para levar mais qualidade no desenvolvimento delas, para que alcancem sua potência.

Conhecemos o desafio de educar um autista. Por isso, instrumentalizamos, apoiamos e guiamos a família nessa jornada por meio de capacitação parental com módulos de educação conforme idade e nível de transtorno, mensuração de resultados e um rigor clínico elevado, com evidências científicas e tratamentos focados em cada indivíduo, porque sabemos que cada pessoa é única.

A Genial Care quer pegar na sua mão e te guiar nessa jornada.

É possível trilharmos, juntos, caminhos extraordinários.

Palavras importam

Sabemos que a linguagem é parte fundamental do processo de compreensão de um material, e que ela é capaz de validar seu próprio significado. Tendo isso em mente, antes de começarmos a produzir qualquer conteúdo, nosso time definiu alguns termos e expressões que preferimos adotar na nossa comunicação – relacionados diretamente ou não com autismo. 

Por que isso?

Porque entendemos que a linguagem mostra, também, como nos posicionamos e no que acreditamos. Consequentemente, cuidar bem da linguagem que usamos é deixar transparente nossa preocupação em promover informações relevantes e de qualidade sobre autismo e também criar produtos e serviços que vão beneficiar você e sua família durante a jornada com uma criança no TEA. 

Por isso, queremos te convidar a conhecer nosso ‘Manual da Genial’. A seguir, você encontrará termos que não usamos, e o motivo disso, e também pelo que preferimos substituí-los. Esperamos que esse material torne claras nossas intenções, que são sempre as melhores possíveis. 


Como nos comunicamos

🚫 Na Genial não dizemos doença. 

✅ Na Genial dizemos condição, transtorno ou distúrbio. 

Dentro da definição médica, doença é tudo aquilo com caráter mórbido  que desencadeia riscos de morte, degradação física e de órgãos internos. Assim, o autismo – ou Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) – não é uma doença, mas sim uma condição ou transtorno do desenvolvimento que afeta duas principais áreas: interação e comunicação social e padrões de comportamento. 

Desta forma, quando falamos sobre autismo, vamos sempre tratá-lo como condição, transtorno ou distúrbio. 

🚫 Na Genial não dizemos normal/anormal. 

✅ Na Genial dizemos típico/atípico.

Já diziam em Atypical: “ninguém é normal”. Por isso, a Genial quer sempre fugir dessa ideia de que existe um padrão ou mesmo algo que é considerado normal (ou até comum) e algo anormal. 

Pensando nisso, definimos dentro do nosso vocabulário que vamos usar o termo ‘típico’ sempre que quisermos nos referir a algo esperado. Isso porque tudo que é ao contrário disso, ou seja, atípico, não significa necessariamente anormal. 

🚫 Na Genial não dizemos pessoa normal

✅ Na Genial dizemos pessoa sem deficiência/ pessoa não deficiente ou pessoa neurotípica.

De novo, queremos fugir do conceito de normalidade citado acima. Por isso, qualquer pessoa que não esteja no espectro do autismo – ou não tenha nenhum outro transtorno ou condição – é considerada uma pessoa sem deficiência/ não deficiente ou, o mais comum no caso de autismo, uma pessoa neurotípica, ou NT, na abreviatura. 

🚫 Na Genial não dizemos problemático

✅ Na Genial dizemos prejudicial.

Muitos profissionais da área da psicologia, até mesmo aqueles com especialização em TEA, costumam usar o termo problemático para se referir a alguns comportamentos que surgem, muitas vezes, em pessoas no espectro. No entanto, o uso da palavra ‘problemático’ pode tanto se referir a algo que é, de fato, prejudicial para a vida da pessoa e também aquilo que a sociedade pode enxergar como – de novo essa palavra horrível: anormal

Tendo tudo isso em mente, na Genial queremos ajudar sua família a encontrar os melhores caminhos para a criança com autismo se desenvolver e conquistar independência e autonomia. No entanto, não estamos preocupado que outras pessoas de fora possam achá-la diferente porque tem uma estereotipia (ou stim, mas vamos falar disso depois) inofensiva que a deixa mais segura e calma em momentos desafiadores. 

Por isso, tudo aquilo que julgarmos ‘problemático’, ou seja, que realmente pode interferir numa boa qualidade de vida, vamos chamar ‘prejudicial’. Esse termo combina bem mais com o que queremos dizer. E com a Genial, claro. 

🚫 Na Genial não dizemos superar

✅ Na Genial dizemos lidar com.

Muita gente odeia verdadeiramente o verbo ‘superar’ e seu significado. Isso porque, apesar dele ser usado num sentido positivo, pode trazer a ideia de que estamos falando de um fardo que as pessoas, de repente, aprenderam a carregar. 

Por esse motivo, sempre que formos nos referir ao diagnóstico de autismo, aos desafios com a criança – que muitas vezes são semelhantes até em crianças típicas da mesma idade ou com outras condições –, vamos dizer que as famílias aprenderam, na verdade, a lidar com aquele sentimento de que tudo tinha chegado ao fim e se reconstruíram a partir das novas informações para continuar buscando o que sempre sonharam: um caminho extraordinário para ela. 

🚫 Na Genial não dizemos portador de deficiência ou portador de autismo. 

✅ Na Genial dizemos pessoa com deficiência ou pessoa com autismo/ autista.

O termo ‘portador’ foi bastante popularizado entre 1986 e 1996. No entanto, pessoas com deficiência descontinuaram o uso dele justamente por entender que elas não portam deficiência. Isto é, a deficiência que elas têm não é como coisas que às vezes portamos e às vezes não portamos (por exemplo: um documento de identidade, um guarda-chuva). Pensando nisso, em 2006, o termo ‘pessoa com deficiência’ foi aprovado em uma Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Trazendo isso também para o lado do autismo, uma vez que pessoas no espectro são consideradas pessoas com deficiência para todos os efeitos legais, também nos referimos a elas como pessoas com autismo ou autistas. Qual o critério? A própria voz de quem estamos conversando. Durante nossas conversas, entrevistas e contatos com famílias e também com pessoas no espectro, queremos sempre saber qual termo a deixa mais confortável, e é ele que vamos usar. 

🚫 Na Genial não dizemos denegrir

✅ Na Genial dizemos difamar ou caluniar.

Já que estamos falando sobre nos reeducar na comunicação. Trazemos aqui um exemplo de termo que não tem relação direta com o autismo, mas que é um termo descontinuado – infelizmente ainda usado muitas vezes – por ser assumidamente racista. 

De maneira literal, denegrir significa ‘tornar negro’, e traz a tona a ideia de que tudo que é negro é ruim. Por isso, na Genial não usamos essa palavra. Quando queremos falar que uma ação ou atitude é ruim, usamos difamar ou caluniar.

✅ Na Genial usamos tanto estereotipias quanto stims.

Outro termo que causa confusão é quanto ao uso de estereotipias ou stims. Ambos se referem a movimentos repetitivos comuns em pessoas diagnosticadas com TEA. Normalmente, famílias e profissionais pesquisam pelo termo ‘estereotipia’ e autistas preferem stims. Qual nós usamos? Depende do caso. Mas se estamos entrevistando ou falando com autistas, vamos usar stims e respeitar a vontade deles. 

🤝 O mais importante de tudo: na Genial ainda estamos em construção

Isso significa que estamos sempre nos reinventando, aprendendo cada vez mais e, claro, incluindo esses aprendizados na nossa comunicação. Por isso, se você acha que podemos incluir – ou retirar – alguma expressão do nosso manual da Genial, que tal conversarmos sobre isso?

Envie um e-mail para comunidade@genialcare.com.br e vamos, juntos, aumentar nosso repertório linguístico sempre com respeito, empatia e zelo. Para mudar o mundo, decidimos começar com pequenos, mas seguros, passos. E esse é sem dúvida um deles. 

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